Faz um ano que os Estados Unidos impuseram tarifas contra produtos brasileiros, em 9 de julho de 2025. O resultado, doze meses depois, foi o oposto do que se esperava do lado americano: a participação da China no comércio exterior do Brasil saltou de 28,9% para 31,5%, o maior percentual desde 2021, enquanto a fatia dos Estados Unidos caiu ao nível mais baixo da série histórica, iniciada em 1997. As importações brasileiras vindas da China cresceram 27,1% em junho, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e a balança comercial iniciou julho com as importações crescendo 10,4% na primeira semana do mês.
A cobertura sobre esse deslocamento tem se concentrado no lado macro: exportação, agronegócio, geopolítica. Falta discutir o que essa mudança significa para quem vive esse mercado na ponta oposta: pequeno e médio empresários que importam da China, não os que exportam a ela.
Quem ainda trata a importação direta da China como alternativa arriscada, restrita a grandes empresários ou fora do alcance de operações menores, está diante de um diagnóstico defasado. O tarifaço não criou essa tendência, apenas acelerou um movimento que já era estrutural. Com a China ocupando cada vez mais espaço no comércio brasileiro, negociar diretamente com o fabricante deixou de ser tática de nicho e passou a ser condição de competitividade. Quem permanece dependente de intermediários carrega um custo que seus concorrentes já eliminaram.
Essa transição, no entanto, não é trivial, sobretudo para quem a inicia sem apoio especializado. É frequente que operações conduzidas de forma isolada, sem curadoria de fornecedor ou validação prévia de produto, resultem em prejuízo evitável: um lote adquirido sem checagem de amostra, um fornecedor mal avaliado, cujo problema só se revela quando o produto já chegou ao Brasil, sem margem de negociação. O prejuízo, nesses casos, costuma ser expressivo, equivalente ao valor de um contêiner inteiro ou ao capital de giro de um trimestre, e resulta quase sempre da ausência de um processo estruturado de validação antes do embarque.
Esse movimento já deixou de ser tendência e passou a ser realidade consolidada. Com a China ampliando sua presença no comércio global, o país fechou o primeiro semestre de 2026 com recorde histórico de trocas comerciais, superando pela primeira vez a marca de 25 trilhões de yuans. No Brasil, esse protagonismo já é estrutural: segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, aproximadamente um quarto de todas as importações brasileiras tem origem na China. Entre pequenas e médias empresas, esse peso é ainda maior. Levantamento da Remessa Online mostra que a Ásia já concentra mais de 60% das importações realizadas por PMEs brasileiras, com destaque para máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos e insumos industriais. Negociar diretamente com fábrica deixou de ser exceção e passou a ser expectativa mínima para quem pretende competir de forma consistente, desde que feito com processo e curadoria adequados.
A pergunta relevante para o empresário brasileiro não é mais se vale a pena importar diretamente da China. O mercado já respondeu a essa questão. A pergunta que resta é com que preparo, método e visão de longo prazo essa operação será conduzida.
O tarifaço passou. A relação comercial com a China, ao contrário, tende a se aprofundar. Quem tratar a importação direta como oportunidade pontual dificilmente sustentará vantagem além do curto prazo. Quem a tratar como construção estratégica de negócio, com processo e visão de médio prazo, estará competindo em um patamar que a maior parte do mercado ainda não percebeu.



