O Dia dos Pais costuma ser marcado por presentes, almoços em família e reencontros. Mas, para especialistas em educação financeira, a data também pode servir para uma conversa que muitas famílias ainda evitam: a organização da vida financeira dos pais. O tema ganhou ainda mais relevância após o aumento dos alertas sobre golpes contra aposentados e pensionistas e das discussões sobre a segurança das operações de crédito consignado. Neste ano, o INSS reforçou medidas de proteção aos segurados e intensificou o combate a fraudes envolvendo benefícios previdenciários.
Ricardo Hiraki, especialista em educação financeira, investidor e CEO da Plano Fintech, empresa de educação financeira que desenvolve soluções para organização do orçamento e planejamento financeiro, explica que a relação entre pais e filhos mudou nos últimos anos. Se antes eram os pais que ensinavam os filhos a administrar o dinheiro, hoje muitos adultos passaram a exercer um papel importante na proteção financeira da família, ajudando os pais a analisar contratos, evitar golpes e tomar decisões mais conscientes sobre aposentadoria e patrimônio.
“Conversar sobre dinheiro com os pais não significa tirar a autonomia deles. É um gesto de cuidado. Em muitos casos, uma segunda opinião antes de contratar um empréstimo ou fazer uma movimentação financeira pode evitar prejuízos que comprometem anos de trabalho e de aposentadoria”, afirma.
Segundo o especialista, o crédito consignado é um dos assuntos que merecem atenção. Embora seja uma modalidade com juros geralmente menores do que outras linhas de crédito, ele deve ser contratado apenas quando houver planejamento e uma necessidade real. “O consignado não é o problema. O risco está em assumir parcelas sem avaliar o impacto no orçamento ou contratar um empréstimo para resolver dificuldades financeiras de terceiros. Muitas famílias acabam transformando uma solução momentânea em um compromisso de longo prazo”, explica.
O assunto ganhou força recentemente após decisões e debates sobre a proteção dos aposentados. Em julho, o Superior Tribunal de Justiça manteve o entendimento de que visitas não solicitadas de correspondentes bancários para oferecer empréstimos consignados a idosos configuram prática abusiva. Paralelamente, o Senado discute medidas para ampliar a segurança na contratação dessa modalidade de crédito.
Além do crédito, Hiraki afirma que outro desafio crescente é a prevenção de golpes financeiros. O próprio INSS tem alertado que criminosos continuam se passando por servidores do órgão para obter dados pessoais e bancários de aposentados, utilizando falsas revisões cadastrais, prova de vida e promessas de regularização de benefícios como estratégia para aplicar fraudes. “Nenhum investimento traz um retorno tão importante quanto evitar uma fraude. Hoje, proteger o patrimônio dos pais também significa orientá-los sobre ligações suspeitas, mensagens falsas e pedidos de informações pessoais”, destaca Hiraki.
Para o especialista, a data também é uma oportunidade para discutir assuntos que normalmente ficam de lado até que um problema aconteça. Organização da aposentadoria, planejamento patrimonial, investimentos, seguros e até a localização de documentos importantes são temas que podem trazer mais tranquilidade para toda a família.
“Planejamento patrimonial não é conversar sobre herança. É organizar informações, documentos e decisões enquanto todos podem participar da conversa com tranquilidade. Isso reduz conflitos, facilita a administração do patrimônio e preserva a autonomia dos pais”, explica o especialista.
Cinco conversas financeiras para ter com os pais neste Dia dos Pais
- Verificar se existem empréstimos ou crédito consignado ativos e quanto da renda mensal já está comprometido.
- Conferir descontos automáticos no benefício do INSS e revisar despesas recorrentes, como seguros, assinaturas e tarifas bancárias.
- Orientar os pais a nunca fornecer senhas, códigos de autenticação ou dados pessoais por telefone, mensagens ou visitas inesperadas.
- Organizar documentos financeiros, aplicações, seguros e informações patrimoniais para facilitar o planejamento familiar.
- Conversar sobre objetivos para a aposentadoria, criação de reserva financeira e formas de preservar a independência financeira durante o envelhecimento.
Para Hiraki, o mais importante é que essas conversas aconteçam antes que surjam dificuldades financeiras. “Assim como os pais passaram anos protegendo os filhos, chega um momento em que os filhos também podem exercer esse papel. Não para controlar a vida financeira deles, mas para ajudá-los a tomar decisões mais seguras, preservar o patrimônio construído ao longo da vida e manter a autonomia pelo maior tempo possível.”




