O bom da idade é que o velho pode conversar com as flores sem sentir receio. Também com bichos e coisas, e não se incomoda se alguém resmunga.
No caso das flores, fala com elas com a alma em devaneio, como quem deposita em suas pétalas aquilo que tem dentro de si: a doçura. Mesmo que às vezes isso possa ser interpretado como senilidade.
Vai de manso até o jardim. Detém-se primeiro diante da humilde margarida, mesmo cercado pelas roseiras. Claro que se importa com as magníficas rosas, mas por que não assentar primeiro o olhar na margarida? Ou na mimosa e pequena miosótis que se azula discretamente no vaso de barro, pendurado à janela?
Outra coisa boa do velho é que seus olhos pousam nas coisas mais simples; e todas conseguem encantá-lo. E atraí-lo. E distraí-lo na silenciosa sintonia entre a sua afeição e a delicadeza das flores.
O simples sempre foi sensível e ambos sabem disso. Só não sei dizer o porquê dessa atração. Talvez seja porque ambos conhecem a brevidade. Ao velho resta pouco tempo; à flor também. Encontram-se exatamente onde o silêncio passa a dizer mais que as palavras.
Ambos nessa sintonia compartilham os olhares, os toques, o silêncio que tem voz de sabedoria. Ele ensina que a mudez do tempo escreve poemas em linhas imaginárias. E essas se mostram apenas a olhos que as queiram ver.
De onde concluo que as flores têm lá suas razões para gostar de velhos. E os velhos as suas para amá-las tanto.
Elas parecem apreciar suas mãos incertas e aveludadas, com articulações em dificuldade. Que acabam por mimá-las entre os tremores e até os temores nos cuidados. Gostam elas também de seus olhos cansados. Eles já não denotam a tenacidade da pressa, nem a do desejo dos mais novos.
Acho que as flores se sensibilizam com os meneios mansos e pensados dos velhos a lhes darem segurança. O novo tem o ímpeto de arrancá-la para si e se beneficiar da sua beleza num vaso, na lapela, num buquê.
Já o velho sabe que, deixando-a, na próxima estação poderá ter dela filhotes a embelezar seus dias.
Há quem chame isso de maluquice, perda de senso.
Talvez seja. Mas desconfio que apenas bem envelhece quem aprende que nem toda conversa precisa de palavras. E que certas flores escutam melhor que muita gente.



