Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Compartilhe:

CRÔNICAS DO BEM

A cobrinha sobre o A

Um dos maiores pecados que minha família cometeu (eu, como caçula, me incluo) foi o de não ter dado à minha mãe, quando jovem, o direito de aprender a ler e a escrever. Ela só teve a oportunidade pelo Mobral, já com um dos pés na velhice.

Na sua época, o direito à aprendizagem escolar era do homem. A elas, os deveres domésticos e maternais, as “prendas domésticas” convertidas no lavar, arrumar, cozinhar, bordar, parir, cuidar. As tarefas de lidar com o dinheiro: comprar, vender, receber, pagar, fazer contas ou se comunicar por escrito, cabiam somente a eles.

Quando minhas irmãs penavam ao me ensinarem as tarefas escolares, ela se sentava ao lado, e calada, admirava a magia da junção das letras para formar palavras. Mas nunca, nem eu, nem elas, fomos capazes de lhe colocar um lápis entre os dedos e ensiná-la.

Pudesse voltar no tempo… Mas não. Não fomos capazes de conceder esse direito. Nem quando ela, ao ouvir pelo rádio, a oferta do curso de aprendizagem pelo Mobral. Decidida, ela se dispôs a andar quarteirões pelas ruas escuras e buscar, nas carteiras escolares daquele projeto, a bênção do aprendizado. Meus cadernos deixados incompletos por relaxo foram, um a um, aproveitados nos seus escritos tremidos, de a a z a formar palavras, que até ali ela somente sabia dizer, não ler, nem escrever.

Levando meus olhos para o ontem, vejo, na escuridão do tempo, ela debruçada à mesa ao lado do fogão que, ressentido com as últimas brasas, a acompanhava nos estudos. E ela escreveu: “a menina abriu o portao”. Sem o til. Ainda não havia aprendido o uso dele nos sons anasalados das letras. E a ensinei, diante de seu olhar crescido, quase fosforescente, de agradecimento, a colocar a ‘cobrinha’ sobre o a.

Por que me lembro agora? Não sei. Talvez a saudade, essa marota que sai a cutucar lembranças belas e más, satisfatórias e doloridas, me sirva para avaliar o tempo que não aproveitei como devia.

Diante da edição do Diário da última terça, dia 9, lembro que o DN acabou de lançar mais uma etapa do seu belíssimo projeto: “Semeando Leitores”. Ele visa incentivar os jovens à leitura e à escrita na formação da cidadania.

Motiva o hábito da leitura para que nossas crianças desenvolvam imaginação, vocabulário, criatividade, empatia, concentração e senso crítico, habilidades que as acompanharão por toda a vida.

Se você, amigo leitor, tiver uma criança à sua volta, não perca a oportunidade que minha família perdeu. Ensine-a na boa prática da leitura, e deixará de cometer os pecados pelos quais pagamos o preço.

Fonte: Renato Benvindo Frata

Compartilhe: