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Joceline Lopes é Diretora de Gente da Numen e responsável pelo comitê de profissionais 50+

APOSENTAR-SE DE QUÊ?

A longevidade e o fim da carreira em linha reta

Outro dia me peguei pensando na palavra “aposentadoria”. Ela vem de aposento: recolher-se ao quarto, fechar a porta, sair de cena. Na Espanha, a mesma fase se chama jubilación, de júbilo. Em Portugal, reforma. Cada língua conta uma história diferente sobre o que acontece depois de uma certa idade. Quando olho ao redor, para as pessoas de 50 e 60 anos que admiro, não vejo ninguém se recolhendo. Vejo gente abrindo portas. 

O Brasil está vivendo mais. Segundo o IBGE, a expectativa de vida está em torno de 76 anos, e isso já aparece nas empresas: pela primeira vez, várias gerações dividem a mesma mesa de trabalho. A pergunta que fica para quem trabalha com pessoas, como eu, é incômoda e necessária: nossos modelos de carreira ainda fazem sentido? 

A carreira que aprendemos a desenhar é uma linha reta. Entrar, subir e sair. Dentro dessa lógica, quem passa dos 50 está sempre “no fim”. Só que essa linha não existe mais. E o mercado ainda não percebeu. 

Os números mostram isso. Uma pesquisa da Rhopen com a Maturi, feita com lideranças de RH de todo o país, mostrou que 84% das empresas não têm política formal de diversidade etária, e 94% não têm nenhuma meta de inclusão. Falamos cada vez mais de longevidade, mas ainda agimos pouco. 

Recentemente, ouvi um episódio do podcast Tantos Tempos, da Candice Pomi, com a atriz Maria Ribeiro e o arquiteto Maurício Arruda. Maria falou dos seus 50 anos com uma leveza que me tocou: a liberdade de não precisar mais agradar a todos e a troca da ansiedade de parecer jovem pela vontade de ser interessante, de ter histórias para contar. 

Arruda trouxe uma imagem que não saiu da minha cabeça: com o tempo, a gente quer morar em casas que contam a nossa história: menos fachada, mais essência. E aí a palavra “aposento” ganhou outro sentido para mim. Talvez, a maturidade não seja se recolher ao quarto, mas de reformar a casa inteira. 

Essa reforma pede um olhar especial para as mulheres. Conheço bem o dilema de ser “nova demais para liderar, velha demais para ser contratada”. Quando jovens, somos questionadas por causa da maternidade. Mais tarde, pela idade, e por um tema que só agora começa a sair do silêncio: a menopausa. Muitas mulheres chegam aos 50 no auge da criatividade e da capacidade de liderar, justamente quando o corpo muda e o mercado passa a duvidar delas. Vivo esta fase hoje, também me redescobrindo, sendo menos dona da verdade e sabendo que há um novo corpo e um novo sentir, que chegam com ela. O mercado ainda mede a aparência, quando o que cresce é o repertório. 

Na Numen, criamos um comitê de profissionais 50+, e a primeira coisa que aprendi foi que estamos ainda nos reconhecendo enquanto grupo. Assim como o mercado, temos várias ideias, discutimos temas relevantes, mas ainda aprendendo com as ações e o que queremos delas. No fundo queremos é nos sentirmos pertencentes. Não temos todas as respostas. Mas aprendemos que a troca entre gerações só funciona quando vai nos dois sentidos. Quem tem mais estrada ensina, sim, e também aprende, se adapta e se reinventa. Não se trata de “passar o bastão”. Trata-se de sentar-se à mesma mesa. 

Não existe fórmula pronta. Existe a decisão de tratar a longevidade como estratégia, e não como discurso: com políticas, indicadores e, principalmente, com naturalidade. Talvez a pergunta não seja quando vamos nos recolher aos aposentos, mas quais portas ainda queremos abrir. E quem queremos ao nosso lado quando abrirmos. 

Fonte: *Joceline Lopes

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RENATO BENVINDO FRATA
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GUTO COSTA
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