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Viva Bem

LITERATURA

Clube Alap de Leitura transforma páginas em encontros

Criado em 2020, projeto da Academia de Letras e Artes de Paranavaí reúne leitores de diferentes idades e trajetórias para compartilhar interpretações e novas formas de olhar para a literatura

Há livros que terminam na última página. Outros continuam por muito tempo — na memória, nas conversas, nas perguntas que ficam e, às vezes, na maneira como passamos a enxergar o mundo. É justamente nesse espaço entre a leitura individual e a experiência compartilhada que existe o Clube Alap de Leitura, iniciativa da Academia de Letras e Artes de Paranavaí (Alap) que, desde 2020, reúne leitores para conversar sobre literatura e tudo aquilo que ela é capaz de despertar.

Criado em 6 de agosto de 2020, data do primeiro encontro, o clube nasceu em um período em que as telas substituíam temporariamente os encontros presenciais por conta da pandemia da Covid-19. Os primeiros encontros foram realizados de forma virtual e, a partir de 2022, passaram a acontecer presencialmente. Desde então, a proposta permanece essencialmente a mesma: ler, ouvir, trocar impressões e descobrir como uma mesma obra pode produzir experiências completamente diferentes em cada leitor.

“A ideia sempre foi promover um espaço de encontro entre pessoas que gostam de compartilhar leituras, reflexões e diferentes olhares sobre as obras literárias”, explica Rosi Sanga, integrante da Alap e uma das idealizadoras do projeto.

Uma leitura nunca é exatamente a mesma

Quem participa de um clube de leitura provavelmente já descobriu uma das surpresas mais interessantes da literatura, que é justamente quando o livro que parecia dizer uma coisa pode, na voz de outra pessoa, revelar algo completamente diferente.

Nos encontros do Clube Alap, as conversas percorrem caminhos variados. Uma passagem pode despertar uma lembrança; um personagem pode provocar uma identificação inesperada; um poema pode levar a uma discussão sobre memória, história ou experiências pessoais. Também há espaço para falar de emoções, autoconhecimento e das relações que cada leitor estabelece com a própria vida.

Para Rosi, é justamente essa multiplicidade que torna a experiência tão rica. “A literatura proporciona múltiplos encontros: com o imaginário, com a memória, com a realidade e com nós mesmos”, afirma.

Por isso, não existe exatamente um roteiro para as conversas. O rumo depende da obra escolhida e, principalmente, das pessoas que estão ao redor da mesa naquele dia. Cada encontro é, de certa maneira, uma leitura nova.

Diversidade de público – Outro aspecto que caracteriza o clube é a diversidade de seu público. Não há uma idade determinada, formação específica ou perfil literário necessário para participar.

Ao longo dos anos, os encontros já receberam pessoas de 14 anos a mais de 60, além de crianças em atividades dedicadas à literatura infantil. Entre os participantes estão estudantes, professores, artistas, escritores e leitores que simplesmente encontraram na literatura uma forma de conversar e estar com outras pessoas.

Essa diversidade também interfere na maneira como os livros são percebidos. Uma mesma história pode ser recebida de formas diferentes por alguém que acabou de descobrir determinado autor e por outro participante que carrega décadas de leituras.

De Conceição Evaristo a Clarice Lispector – Ao longo de seis anos, são muitas as obras que passaram pelas conversas do grupo. Escolher uma única leitura marcante, por isso, não é uma tarefa simples. A trajetória começou com poemas e contos de Conceição Evaristo, uma escolha que proporcionou a muitos participantes o primeiro contato com a obra da escritora. Para Rosi, essa experiência deixou uma marca justamente porque alguns autores passam a integrar definitivamente a bagagem de quem os descobre.

No encontro mais recente, o grupo mergulhou em “Sentir um Pensamento”, obra construída a partir de reflexões sobre trechos de textos de Clarice Lispector. A leitura abriu espaço para uma conversa que ultrapassou os limites da análise literária e chegou às experiências pessoais dos participantes.

Curadoria – As escolhas das obras são discutidas nos próprios encontros e passam pela curadoria da Diretoria Artística da Alap, responsável também pela coordenação do clube. A proposta é manter uma programação diversa, alternando gêneros e estilos e aproximando autores locais, nacionais e estrangeiros. 

Atualmente, a preferência é que os encontros ocorram uma vez por mês, normalmente no último sábado, às 15 horas. Os locais variam entre a Sala do Ponto de Cultura, na Praça dos Pioneiros, e a sala da Fundação Cultural, na Praça Rodrigo Ayres de Oliveira, além de outros espaços.

A agenda, entretanto, não é rígida. Feriados, compromissos culturais e atividades da própria Alap podem alterar as datas. A definição costuma ser feita ao final de cada encontro ou por meio de um grupo de WhatsApp que reúne cerca de 30 participantes.

A flexibilidade combina com o espírito do clube, em que não há obrigação de transformar a leitura em tarefa. O convite é para que ela seja experiência.

Para quem ainda não foi

Talvez exista uma imagem equivocada de que clubes de leitura são espaços destinados a quem conhece profundamente literatura, domina nomes de autores ou sabe falar sobre escolas literárias. No Clube Alap, a porta de entrada é muito mais simples.

 “Ninguém precisa ser especialista em livros para participar. Basta gostar de ler e estar disposto a ouvir e conversar”, resume Rosi.

E, em uma cidade que carrega no próprio imaginário o título de Cidade Poesia, talvez não exista maneira mais bonita de manter a literatura viva do que transformar a leitura em encontro.

Fonte: Cibele Chacon - da redação

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