Cotidiano
Ricardo Westin 
Da Agência Senado
A cada dez adultos no Brasil, quatro estão inadimplentes, de acordo com a Serasa Experian. Além de assistirem ao crescimento de suas dívidas como bola de neve (pela incidência diária de multa, juros e correção monetária), as pessoas com o nome sujo na praça perdem o acesso a empréstimos bancários, cheque especial e cartão de crédito.
Uma explicação para a alta inadimplência está na situação econômica do país, historicamente delicada, com salários baixos e desemprego elevado. Mas essa não é a única causa. As contas não pagas também têm um componente individual: o chamado analfabetismo financeiro. A expressão, que remete ao analfabetismo funcional, é recente e vem sendo utilizada por universidades e instituições como o Banco Mundial.
A pessoa é considerada analfabeta financeira quando não lida com o dinheiro de forma plenamente consciente e racional. Ela, por exemplo, não tem ideia de quanto gasta por mês. Não se preocupa em classificar suas despesas (alimentação, transporte, educação, telefone, lazer) nem em saber o peso que cada categoria tem no orçamento pessoal. Compra por impulso e não reflete se o produto é necessário e urgente.
O analfabeto financeiro faz parcelamentos ignorando o peso dos juros no preço final. Entra no cheque especial e paga apenas o valor mínimo da fatura do cartão de crédito sem perceber que em ambas as situações está contraindo empréstimo — e empréstimo caro. Deixa o dinheiro parado na conta corrente e não aplica em investimentos. Por vezes, nem sequer poupa. Tais comportamentos estão presentes em todas as classes sociais.
Especialistas dizem que, como todo tipo de ignorância, o analfabetismo financeiro se combate com educação. Por isso, em 2010, o governo federal criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira, uma política pública que uniu instituições tão diferentes quanto o Banco Central, o Ministério da Educação e a Secretaria Nacional do Consumidor na criação e execução de projetos que disseminem o conhecimento financeiro pelo país.
Entre as ações em curso, está uma voltada para aposentados (que costumam se endividar com empréstimos consignados) e outra para mulheres beneficiárias do Bolsa Família (que muitas vezes sustentam os filhos sozinhas).
O educador financeiro Alvaro Modernell, autor de 25 livros didáticos sobre o tema, resume:
— A educação financeira não ensina as pessoas a ficarem ricas, mas sim a agirem de maneira a transformar o dinheiro que elas têm, não importa se é pouco ou muito, em fonte de bem-estar, e não de dor de cabeça.
O passo mais ambicioso dessa política pública federal será dado no ano que vem, quando todas as escolas do Brasil terão de oferecer educação financeira aos estudantes. O tema está previsto na recém-criada Base Nacional Comum Curricular (BNCC), conjunto de diretrizes que servem de norte para os colégios privados e as redes municipais e estaduais de ensino construírem seus próprios currículos.
De acordo com Modernell, o ideal seria que os pais também se encarregassem da educação financeira dos filhos, mas isso não costuma ocorrer:
— O dinheiro ainda é um tabu para muitas famílias. Não se toca no assunto com os amigos, com os filhos e, em certos casos, nem mesmo com o cônjuge. Guarda-se mais segredo sobre a vida financeira do que sobre a vida sexual. Se a pessoa vive uma situação confortável, fica com medo de que lhe assaltem ou peçam dinheiro emprestado. Se ela vive uma situação ruim, não quer que ninguém saiba do seu fracasso profissional. Por isso, acaba ficando com a escola a missão de ensinar as crianças e os jovens sobre dinheiro. Se a escola de fato se propõe a preparar os estudantes para a vida, não pode ignorar a educação financeira.
A educação financeira estará em todas as séries dos ensinos fundamental e médio não como disciplina extra, mas como tema a ser trabalhado de forma simultânea pelas diversas disciplinas. É a mesma tática transdisciplinar que se adota com temas como alimentação saudável, educação ambiental e noções de trânsito.
Às crianças pequenas, os professores ensinarão questões mais genéricas e simples, como o valor do dinheiro, o caminho percorrido pelo alimento do campo à mesa de casa e a necessidade não desperdiçar água, comida e energia elétrica. Fábulas como A Cigarra e a Formiga mostrarão de forma lúdica por que é importante poupar para o futuro e não ser imediatista.
Questões mais específicas e complexas, como juros, impostos e modalidades de empréstimo, ficarão para os adolescentes do ensino médio.
Para os professores que têm pouca intimidade com o mundo dos números e das planilhas, a chegada da educação financeira pode ser motivo de apreensão. Muitos deles, aliás, fazem parte daquele contingente de brasileiros com dívidas até o pescoço. A professora de economia, Ruth Hofmann, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), trata de acalmá-los:
— A educação financeira não tem a ver com matemática financeira ou contabilidade, mas sim, com mudança de hábitos e comportamentos. A abordagem é parecida com a da educação alimentar. Da mesma forma que o professor nos mostra que precisamos comer frutas e verduras e evitar frituras e doces em excesso, ele nos ensina que é importante deixar de gastar com coisas desnecessárias hoje, e passar a poupar dinheiro para o amanhã, já que isso permite que realizemos nossos sonhos.
Depois que passarem por uma capacitação, os professores das disciplinas tradicionais verão que realmente não há mistério. Em história, poderão mostrar cédulas antigas de réis, cruzados e cruzeiros para explicar o que é inflação. Em geografia, poderão recorrer ao dinheiro de outros países para ensinar a conversão de moedas.

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