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Nos últimos 60 anos, o cerrado mudou como nenhum outro bioma brasileiro. Especialistas calculam que, se a perda de 1,1% da superfície original por ano se mantiver, o bioma deixará de existir na primeira metade deste século. Alguns estudos cravam que o fim será em 2030. Os mais otimistas estimam 2050. De acordo com números do Ministério do Meio Ambiente, a média é de mais de 9 mil quilômetros quadrados de perda da cobertura vegetal por ano. Área correspondente a um território e meio do Distrito Federal. Há uma divergência entre a quantidade de área de cerrado devastada. O governo federal divulga 43,42%. Organizações ambientalistas falam em 50% de perda. A escalada da destruição provoca uma cadeia negativa. A perda de cobertura vegetal nativa e a consequente modificação no ambiente impactam no ciclo hidrológico, com lençóis freáticos cada vez mais vazios, chuvas mais esparsas e fortes e rios com vazão menor. “Acabando com a savana mais rica do planeta, estamos dando um tiro no pé. Nas cidades, a impermeabilização não deixa mais penetrar água no solo. No campo, o agronegócio consome de 70% a 80% da água do Brasil. A demanda só aumenta. Vai haver um colapso”, alerta Reuber Brandão, professor de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB). Com o desmatamento, em 12 anos as espécies animais ameaçadas de extinção passaram de 75 para 176. O mais grave: nesse período, nenhuma conseguiu deixar a lista. Quatro estão categorizadas como criticamente em perigo, sob risco iminente de desaparecerem. Trata-se da borboleta Hyalyris fiammetta, de duas aves — o pararu-espelho e a rolinha-do-planalto — e do rato candango. Exemplares deste foram vistos pela última vez por funcionários da Novacap, durante a construção de Brasília,  na região da Candangolândia e do Zoológico. Na flora, há 310 tipos ameaçados. Das 1.140 plantas que podem ser perdidas, 657 já são consideradas condenadas à extinção, apontam estudos baseados nos dados da organização britânica Lista Vermelha de Espécies em Extinção. A velocidade da destruição maior do que a capacidade de ações públicas e privadas de conservação preocupa especialistas. “O planeta não aguenta do jeito que a gente está indo. Não é só o cerrado. O planeta vai estourar antes e o cerrado vai embora junto”, lamenta José Felipe Ribeiro, pesquisador da Embrapa Cerrados.

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