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Depois de quatro meses em cartaz, uma exposição de Tarsila do Amaral destronou Claude Monet como o maior sucesso de público do Masp (Museu de Arte de São Paulo) – 402.850 pessoas foram ver a modernista brasileira neste ano, contra 401.201 atraídos pelas telas do impressionista francês em agosto de 1997. Na semana de encerramento (final de julho), quando chegou a 350 mil visitantes, Tarsila já tinha se tornado o artista brasileiro mais visto no museu da avenida Paulista, que alardeou cada marco dessa escalada fazendo barulho nas redes sociais e esticando os horários de abertura. Os números não são ultraprecisos, vale lembrar. Isso porque o museu só tem os dados da atual gestão, iniciada há cinco anos. Mas um levantamento rápido das últimas décadas comprova que nada bateu a marca dos 400 mil visitantes no maior museu do país, muito menos a exposição de um artista brasileiro. O “Abaporu” (foto) foi o principal alvo. Quando batizou sua exposição mais vista de todos os tempos “Tarsila Popular”, o Masp deixava claro que era o Brasil da feira de frutas, o das procissões na roça e do Carnaval que moldava as dezenas de obras da artista fora de sua fase arquitetada para impressionar olhares estrangeiros. Em Nova York, o MoMA acaba de desembolsar US$ 20 milhões por “A Lua”, um quadro menor da fase mais aclamada da artista – a negociação concluída há pouco impediu que a pintura estivesse na mostra. O “Abaporu”, talvez a obra mais célebre a deixar o país na história recente, detona discursos ufanistas a cada uma das muitas vezes que aparece numa exposição em solo nacional. A tela comprada pelo argentino Eduardo Costantini na década de 1990 por pouco mais de US$ 1 milhão foi a vedete inevitável da mostra, mesmo que sua última passagem por São Paulo, há 11 anos, tenha levado só 108 mil pessoas à Pinacoteca. Em todo caso, o quadro do Malba, de Buenos Aires, é só uma ponta de um triângulo. Enquanto “Abaporu” e “Antropofagia”, ambas presentes na mostra, são a síntese plástica mais bem-sucedida do “Manifesto Antropofágico” de Oswald de Andrade, marido da artista à época da criação desses trabalhos, uma terceira obra foi a raiz dessa espécie de santíssima trindade da modernista. Mais controversa das telas de Tarsila, “A Negra” foi o quadro abre-alas da mostra, num gesto ousado de seus organizadores -a visão estilizada da velha ama de leite da fazenda da família da artista no interior paulista não deixa de carregar todas as marcas de uma pintora atravessada pela força do furacão das vanguardas e um apego ainda que torto e fetichista à sua terra natal. Tarsila pintou o quadro em 1923 em Paris, vista de perto por seu mestre à época, Fernand Léger. No lugar da delicadeza feminina, a brutalidade feroz de um bicho enjaulado.

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