Artigos
Gerson Leite de Moraes*
Conta-se que Ludwig van Beethoven (1770-1827) desentendeu-se em 1806 com o seu principal mecenas, Karl Alois (1761-1814), conhecido como príncipe Lichnowsky, desavença esta que terminou a amizade entre ambos.  Numa certa noite em Viena, na Áustria, o príncipe, num acesso de fúria nobilística quis obrigar Beethoven a tocar para seus convidados. 
Beethoven recusou-se e não se fez de rogado, escreveu uma carta para o seu mantenedor que dizia mais ou menos o seguinte: “Príncipe, o que você é, deve-se à casualidade de seu nascimento; já o que eu sou, o sou por meio de muitos e penosos esforços próprios. Ao longo da história têm existido milhares de príncipes e existirão outros milhares mais no futuro, contudo, existe apenas um Beethoven”. Esta sem dúvida é a resposta de quem sabe o seu valor. 
De fato, tratava-se de um gênio que tinha uma obra imensa para citar como exemplo e para subsidiar sua afirmação. Gênios são assim, às vezes excêntricos, às vezes beirando a loucura e em todos os momentos com ideias e obras que mudam radicalmente a maneira como a sociedade enxerga as coisas presentes e futuras. Os gênios são perenes, seminais e, por isso, dão-se a múltiplas interpretações, tornando-se eternos. O gênio condena a sociedade a interpretá-lo para sempre. Trata-se de um jogo de bênção e maldição.
Infelizmente, no Brasil de hoje, o governo Bolsonaro resolveu elencar algumas figuras e incensá-las à categoria de gênio como descrita acima. O nome da vez é Olavo de Carvalho. Menos! Muito menos!
Como diz o ditado: “vamos devagar com o andor que o santo é de barro”. Governos sem personalidade, sem capacidade de articulação política, cercado de bajuladores ou fomentado por pseudos-intelectuais geralmente naufragam rápido. 
A tentativa de transformar Olavo de Carvalho no gênio do momento presente, como se ele fosse um “iluminado” capaz de oferecer respostas para todos os dilemas do governo é um erro crasso do governo Bolsonaro, estimulado logicamente por um clã sedento de arengas. Com uma família assim, Bolsonaro não precisa de oposição.
A mais recente crise vivida pelo governo Jair Bolsonaro vem das linhas aliadas. Isso não chega a ser uma novidade, pois com um conglomerado político marcado pela diversidade ideológica no viés conservador, unido somente pelo sentimento antipetista que criou uma narrativa capaz de vencer as eleições, mas que não consegue gerar um mínimo de paz em nome da governabilidade, o governo Bolsonaro começa a mostrar suas primeiras fissuras significativas. 
O barco começa a fazer água. As escaramuças entre o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho e o vice-presidente Hamilton Mourão representam uma crise que pode paralisar o país. 
Seria bom para o governo repensar sua definição de “gênio”, deste ser que se coloca acima dos meros mortais opinando sobre tudo, mas de longe, sem sujar a bota na história do país que diz amar, mas que não faz parte dos seus planos cotidiano s já que o mesmo mora fora há muito tempo. 
Olavo de Carvalho não é e nunca será um Beethoven, portanto não tem nada de genial. Beethoven apesar de surdo não desafinava, ao contrário de Olavo, que apesar de escutar não ouve ninguém e desafina o tempo todo fazendo o país inteiro atravessar o samba.
*Gerson Leite de Moraes – Graduação em Teologia, Mestrado em Filosofia, Doutorado em Ciências da Religião e Prof. de Ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.