Das coisas esquecidas que me cabem
nos silêncios da saudade,
guardo todas,
com singelo desvelo,
empoeiradas nas paredes dos olhos,
engavetadas nas artérias do peito,
catalogadas no farelo do tempo.
Mas guardo-as,
embora às vezes propositalmente perdidas.
São coisas bem descritas,
sem aparente significado
aos corações dos que mal sentem.
Nem tudo são coisas antigas
no apagar dos dias.
Memórias perfeitas existem.
Se importam.
A infância aquietada
no toque no cabelo pela mãe,
no último colo seu.
Há coisas esquecidas que me cabem
em dias assim,
em que desarrumo bagagens
para rememoriar os silêncios,
como os domingos distantes,
os irmãos já crescidos,
as brigas e brincadeiras confundidas em amor,
deixadas nos anos das esperanças,
o medo de ficar só.
E se crescermos?
O tombo da bicicleta,
as muitas vezes em que se apaixonou,
o primeiro coração partido,
as chuvas que tomou
e as brincadeiras na enxurrada,
as borboletas no estômago
e a descoberta da ansiedade.
E se não conseguirmos?
O que ser quando crescer?
Quem sou agora que cresci?
São tantas as coisas que me cabem
que não cabem nestas linhas,
mesmo nestas linhas da vida.
Por isso permanecem esquecidas,
mesmo que em saudades de poeira
que, de quando em quando, o sopro levanta,
traz ou leva.
Ora vêm, ora vão,
com o desejo do dia,
nas incertezas que nos cabem.

















