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Objetivo é garantir renda para os artistas que tiveram os trabalhos interrompidos em razão da pandemia de Covid-19 e das medidas de sanitárias para conter o avanço da doença

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) escreveu: “Temos a arte para que a realidade não nos destrua”. Não poderia ser mais atual. Na realidade marcada pela pandemia de Covid-19, com mais de 16,6 milhões de casos positivos e número superior a 465 mil mortes em todo o Brasil, as manifestações artísticas geram esperança, trazem alívio.

Nas palavras professora de dança e artes circenses Karina Lima, de Paranavaí, foi possível perceber como as pessoas se alimentam de arte. “Quando o país virou um caos e entramos em isolamento, vimos a quantidade de lives musicais que se difundiram e ajudaram as pessoas a passar o tempo. O entretenimento cultural nesse período foi escape para muitas pessoas que de repente viram suas vidas virarem de ponta-cabeça.”

Formada em Educação Física, Karina Lima teve a rotina de trabalhos afetada pelas novas condições de convivência social. Para cumprir a regra de distanciamento, logo no início da pandemia, suspendeu os atendimentos presenciais e passou a transmitir as atividades virtualmente. “Esse processo de adaptação demorou um pouco, algumas alunas não se adaptaram e pararam com as aulas.”

Ela não foi a única atingida pela pandemia de Covid-19. Um levantamento feito pelo Conselho Municipal de Política Cultural mostrou que artistas e trabalhadores da cultura tiveram as finanças afetadas desde março de 2020, quando os primeiros casos da doença foram confirmados em Paranavaí. A categoria foi integrada a ações de assistência, com intermédio do Comitê de Operação Emergencial (COE) Social.

Para se ter uma ideia, a Fundação Cultural de Paranavaí conta com 206 cadastros de artistas e profissionais da área, mas o presidente Rafael Torrente garante que o número é muito maior. Significa que não foi possível dimensionar e, consequentemente, alcançar todas as pessoas que atuam no segmento artístico-cultural.

Ação coletiva – Os próprios artistas se organizaram para transmitir shows ao vivo pelas redes sociais. O projeto “Atores em foco” é um exemplo. A partir de uma plataforma digital, o grupo oferece apresentações virtuais e pede a contribuição da comunidade como retorno. A página destaca que “a arte tem que continuar”.

A atriz e professora de teatro Ligia Niehues conta que a ideia surgiu em uma reunião do Grupo de Trabalho de Artes Cênicas de Paranavaí. A princípio, fariam visitas a empresas do Noroeste do Paraná, mas, por causa da necessidade de distanciamento social, entenderam que a melhor maneira de chegar ao público seria pela internet.

Ela explica que são oferecidos trabalhos em forma de vídeo (contação de histórias, vídeo-poemas) e lives (sarau). “O objetivo é mesmo ajudar o artista a sobreviver a este momento de tantas incertezas.” E mesmo que cada um tenha buscado, individualmente, caminhos para manter as finanças, “só poderemos, de fato, voltar às atividades quando tudo isso passar”, diz Ligia Niehues.

A plataforma apresenta valores para as contribuições. Cada montante garante um tipo de produto ou serviço. Quem fizer o repasse para os “Atores em foco” terá o nome divulgado pelos artistas, a título de publicidade do projeto. Toda a arrecadação será distribuída de forma equitativa entre os participantes. Segundo Ligia Niehues, são pessoas que sobrevivem substancialmente do teatro.

Na avaliação de Karina Lima, que integra o projeto, ações coletivas são de suma importância. “Eu gosto de seguir o pensamento de que ‘juntos somos fortes’. Sendo assim, fazer de forma coletiva é sempre mais contagiante do que fazer de forma individual, e também a abrangência de público fica bem mais interessante.”

Artistas na pandemia – Ligia Niehues conta que antes da pandemia atuava como arte-educadora e mantinha contratos profissionais, além de trabalhar de forma autônoma. A Covid-19 transformou essa dinâmica. “A situação foi mesmo dura. As crianças não podendo frequentar a escola, igualmente não podiam frequentar as atividades e oficinas extracurriculares. Eventos cancelados. Bares fechados. Muitos artistas tendo que migrar de atividade para sobreviver.”

Para Karina Lima também não foi fácil. “Em muitos momentos parei imaginando o que fazer naquele mês para que a questão financeira não fosse afetada tão intensamente. Me reinventei, fiz chocolates durante a Páscoa e kits para o Dia dos Namorados, trabalhei com vendas de cuscuz, tapioca e salada de frutas em sistema delivery, tudo para somar ao que perdi com a ausência dos alunos.”

Poder público – Com o objetivo de garantir espaço para os artistas se apresentarem de forma remunerada, a Fundação Cultural lançou o “Festival Cultura em Casa”, que se estendeu de maio a julho do ano passado. Os conteúdos audiovisuais foram enviados por profissionais de diferentes áreas de atuação. Os materiais incluíam dicas de brincadeiras, dobradura, contação de história, declamação de poesia e música. De acordo com o presidente Rafael Torrente, mais de 70 mil pessoas foram alcançadas com as transmissões online.

Cada artista recebeu uma premiação de R$ 500. Todos eram de Paranavaí e tinham mais de 18 anos, com a devida comprovação de atuação na área cultural. “A ideia foi ajudar as pessoas a enfrentarem este momento, levando arte de qualidade até elas, e ao mesmo tempo continuar incentivando a produção artística no município”, afirma Torrente.

No segundo semestre de 2020, a Prefeitura de Paranavaí aderiu à proposta da Lei Aldir Blanc, que estabeleceu ajuda emergencial dificuldades financeiras durante a pandemia. O município recebeu R$ 631.358,83 do Governo Federal e conseguiu utilizar 99,5% do recurso disponível. “Uma grande vitória para o setor cultural”, avalia o presidente da Fundação Cultural.

Entre editais e chamamentos públicos, a Administração Municipal proporcionou aos artistas a oportunidade de mostrarem seus trabalhos, sendo remunerados. “As ações desenvolvidas pela Fundação Cultural levam em consideração o interesse público e, consequentemente, da classe artística”, destaca Torrente. Segundo ele, o calendário de eventos deste ano prevê atividades até dezembro. Parte será de forma online e, quando for possível, presencialmente. “Obviamente, seguindo as orientações da Vigilância em Saúde e obedecendo os decretos municipais e estaduais”, complementa.

Em andamento – Torrente informa que o Edital de Apoio à Cultura 001/2021 está em fase de avaliação. O resultado dos premiados deve ser publicado nos próximos dias. Publicado em fevereiro deste ano, tem como objetivo selecionar artistas de Paranavaí para premiações, com recursos públicos municipais. O valor total disponível é de R$ 100 mil.

Ele também fala sobre o 56º Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), programado para a primeira quinzena de novembro. As inscrições terminaram no dia 31 de maio, com recorde de cadastros: foram aproximadamente 1.500 trabalhos inscritos.

Importância da arte – Pintor de um dos quadros mais famosos da história, Mona Lisa, o italiano Leonardo da Vinci (1452-1519) definiu: “A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível”. É o reflexo da alma, dá cor ao mundo e permite alcançar os sonhos.

No caos do teatro, vai além da imaginação. “Aprimora a comunicação”, diz Ligia Niehues. Os que praticam se desenvolvem melhor profissionalmente: professores, vendedores e até políticos, cita. “Se você tem consciência corporal, você tem mais alcance sobre o outro ao se comunicar.”

Mas não é só. As apresentações presenciais fazem parte de quem o artista de teatro é. “O teatro sem o contato do público é impotente. O público é um dos elementos da representação cênica. Sem ele o Teatro não acontece”, pondera a atriz. Ela opina que é possível criar performances memoráveis diante das câmeras, “mas na representação há que ter essa convergência de olhares, essa cumplicidade que se faz presencial”.

Serviço – Para conferir os trabalhos dos “Atores em foco”, basta acessar a plataforma digital do grupo: www.catarse.me/a_arte_tem_que_continuar_apoie_o_artista_de_paranavai_3e32?ref=project_link

 

Ligia Niehues: “Objetivo é mesmo ajudar o artista a sobreviver a este momento de tantas incertezas”

Foto: Reprodução/internet

Rafael Torrente aponta as ações do poder público para reduzir os efeitos da pandemia entre os artistas

Foto: Reprodução/internet

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