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Na data que marca dois anos de morte do artista paranavaiense, o DN presta homenagem pelo legado que deixou à cultura regional

Ele transbordava poesia e transformava o mundo em canção. Distribuía sonhos e abraçava as pessoas com a alma. Foi marido, pai, avô, amigo. Foi artista. Paulo Cesar de Oliveira deixou marcas irretocáveis na história de Paranavaí e do Noroeste do Paraná e se tornou protagonista no cenário cultural da região e de todo Estado do Paraná.

Amor e orgulho que sentia pela família sempre ficavam evidentes Foto: Arquivo de família

Paulinho exaltava a natureza e nela se reinventava. Admirava as belezas e os mistérios dos rios. Tinha especial apreço pelo Rio Paraná, onde estava em 22 de agosto de 2018. Naquela quarta-feira, enquanto contemplava o esplendor da paisagem e dela tomava parte, caiu da embarcação em que estava. Foi encontrado quatro dias depois. Seu corpo, sepultado em 27 de agosto.

Neste sábado, 22 de agosto de 2020, dois anos após o acidente, o Diário do Noroeste presta homenagem a ele e ao legado que deixou. “Um legado riquíssimo, principalmente musical, mas também a memória de uma figura amável que sempre respeitou a natureza e as pessoas ao seu redor”, disse Dorival Torrente, amigo e parceiro de PC de Oliveira.

Admirava as belezas e os mistérios dos rios
Foto: Arquivo de família

Torrente e Paulinho se conheceram em 1973, atuaram juntos no teatro e seguiram lado a lado no Grupo Gralha Azul, criado há aproximadamente 40 anos. O objetivo deles era traduzir em notas musicais as riquezas regionais, as matas, os rios, a terra, o chão, o pisar. Na década de 1980, fizeram duas apresentações no programa Som Brasil, transmitido pela Rede Globo, e levaram o nome de Paranavaí para todo o país.

Durante toda a trajetória do Gralha Azul, “Paulinho foi um incentivador, um irmão, de um companheirismo imensurável. Foram décadas de amizade profunda”, contou Torrente.

Nas relações familiares, Paulo Cesar era um homem que sempre estava disposto a ajudar quem precisasse. Nas palavras das filhas Pauline e Ariane “era centrado, honesto e extremamente correto em suas atitudes. Embora fosse bastante introspectivo e reservado, eram claros o amor e o orgulho que sentia pela família”.

Dorival Torrente: “Incentivador, irmão, de um companheirismo imensurável”
Foto: Ivan Fuquini

“Gostava de tocar seu violão e dedilhar o piano, sempre acompanhado da sua dose de uísque”, lembrou Pauline. “Temos muitas lembranças boas em sua companhia. A vida toda, esforçou-se para nos proporcionar tudo de melhor. Sempre nos incentivou a ler e estudar. Somos eternamente gratas a ele por tudo.”

Paulinho levou as filhas para o mundo das artes e as ensinou a respirar cultura. “Crescemos na Casa da Cultura, estávamos presentes em todos os eventos. Quando eu tinha sete anos e minha irmã cinco, nos matriculou nas aulas de piano. Fui até o fim e hoje sou formada em piano clássico. Minha irmã desistiu logo no início, e toca um pouco de violão. Toca bossa nova e se gaba dizendo que aprendeu com o pai”, rememorou Pauline, com risos.

O sentimento que fica, disse a filha, é de que ele “cumpriu seu objetivo, quando em 1977 saiu do Rio de Janeiro e decidiu cantar as coisas do Paraná. Infelizmente ele partiu cedo demais, ainda tinha muito a fazer”.

 

Musicista de Paranavaí homenageia Paulo Cesar

Jacqueline Cardoso: “Foi como se ouvisse a música tocando inteira na minha cabeça e não parou eu escrever”
Foto: Aníbal Marangoni

“O poeta saiu passear

Foi pescar as palavras no rio

Tanta lenda levava nos olhos

E no seu sorriso gentil

Eis que Iara enxergou a canoa

E na rede o pôs a dormir

E assim se tornou poesia até mesmo na hora de partir”

A estrofe da canção “Menestrel da Minha Terra”* é uma homenagem da musicista paranavaiense Jacqueline Cardoso a Paulo Cesar de Oliveira. Ela conta que pessoalmente teve pouco contato com o ídolo, mas desde pequena admirava sua obra.

Em depoimento para o Diário do Noroeste, ela fala onde buscou inspiração para a música que fez para Paulinho. Confira um trecho do relato:

“Um dia, em Curitiba, fui visitar meu primo Ivan Santos, jornalista, músico, produtor e conterrâneo. Ele me falava do Gralha [Azul] com brilho nos olhos. Resgatei um pouco as músicas que ouvi na infância.

“Recebi a notícia da sua partida de diversas formas diferentes, diversas vezes. Todo mundo queria me contar que ele se foi. E cada um dava um pedaço da música sem saber. Eu não morava aqui [em Paranavaí], mas li a notícia e chorei. Depois, meu pai me contou.

“Passaram alguns meses, voltei a morar em Paranavaí e cada amigo em comum que eu encontrava me dizia: ‘E o PC, hein? Que triste.’ E foram me contando cada detalhe daquele dia. Eu senti a cidade enlutada.

“Este ano, no dia do seu aniversário, mais uma vez um amigo em comum lamentou a sua morte. Quando eu vi as fotos, foi como se ouvisse a música tocando inteira na minha cabeça e não parou de tocar até eu escrever. Em questão de dez minutos, estava pronta. Por isso eu insisto que não é uma composição só minha: cada um que me relatou a ‘travessia’ me ajudou a escrever esse bilhete de amor para amainar os corações.”

“Menestrel da Minha Terra” foi inscrita no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) e tem uma versão disponível no Youtube. A intenção de Jacqueline Cardoso é produzir um videoclipe.

Em 27 de dezembro do ano passado, o Grupo Gralha Azul também homenageou Paulinho. A data marcou o lançamento do álbum Canoa Travessia, com a última participação de PC na discografia deles.

Para Pauline, filha de Paulo Cesar, ver as homenagens que o pai tem recebido após a morte “é muito dolorido, mas ao mesmo tempo gratificante. Também as consideramos muito importantes por manter viva a memória dele. Meu pai merece muito, por tudo que ele deixou e pelo ser humano que ele foi”.

 

Família de Paulo Cesar prepara publicação de obras inéditas

Ao longo da trajetória, Paulo Cesar de Oliveira eternizou muitas composições: músicas, poemas, contos e uma infinidade de textos que fazem parte do acervo cultural de todos os seus admiradores.

Parte dessa produção ainda não é conhecida do público, e a família já está se organizando para fazer a publicação. A filha de PC informou ao DN que “temos um livro pronto sobre a história de Paranavaí, um livro infantil e vários contos, além de poemas e músicas inéditas escritas por ele que encontramos em seu computador”.

Entre os achados está o “Cordel Paranaense”*, do qual reproduzimos um trecho a seguir:

 

“aqui pras bandas do sul

contam as lendas que havia

um pássaro lindo e formoso

que o pinhão conduzia

a sua simples ação

o fruto propagaria

 

a gralha azul virou símbolo

de uma terra pujante

de belas araucárias

e imponência gigante

folclore paranaense

tão rico e interessante

 

mas o pássaro formoso

de um azul sem igual

é fadado a extinção

diz a história atual

por ato da mão do homem

sofre a força do mal”.

 

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