Destaque

Héracles Alencar Arrais disse que pode chegar o momento em que a estrutura não será suficiente para absorver todos os pacientes encaminhados ao PS. Hospital atende pessoas de todo o Noroeste do Paraná

As macas espalhadas pelos corredores dão a dimensão do problema: o Pronto Socorro (PS) da Santa Casa de Paranavaí está superlotado. A capacidade é para acolher 14 pessoas, mas chegou a receber 26 pacientes. Na tarde de ontem, eram 20. O hospital é referência regional e atende moradores de todo o Noroeste do Paraná que precisam de cuidados médicos. São encaminhados pelo Samu, pelo Siate ou pela Central de Leitos, que regula os internamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o Estado.

O diretor-geral da Santa Casa, Héracles Alencar Arrais, definiu a situação: “Estamos tocando no limite. Podemos chegar ao ponto de dizer que não temos mais macas”. E tinha razão. Na tarde de ontem, pelo menos duas pacientes do Pronto Socorro receberam atendimento em cadeiras, e não em macas. “A estrutura está sobrecarregada.” Ele disse que não há risco de paralisar as atividades do PS, mas alertou para a possibilidade de não conseguir absorver toda a demanda. “Precisamos dar o mínimo de condição, levando em conta o número de macas, camas e leitos.”

Arrais garantiu que em 19 anos atuando na Santa Casa, é a primeira vez que presencia um cenário tão preocupante. O tempo máximo de permanência de um paciente no Pronto Socorro deveria ser 12 horas, mas há casos em que a falta de leitos de Enfermaria ou de UTI torna necessário ficar por período maior. De acordo com o médico plantonista Leandro de Oliveira, a espera pode passar de cinco dias. Recentemente, disse, oito pessoas que estavam no PS deveriam estar recebendo tratamento intensivo. Ele também avaliou que se trata de uma situação que jamais presenciou.

Um conjunto de fatores tem levado a Santa Casa de Paranavaí a ultrapassar a capacidade máxima de ocupação do Pronto Socorro. O primeiro diz respeito à pandemia de Covid-19. Por causa do grande número de pacientes com complicações provocadas pela doença e que precisam de internamento, foi necessário utilizar leitos particulares e de convênio, o que reduziu a disponibilidade de vagas do hospital para casos não relacionados ao coronavírus. Dependendo da condição, a pessoa que está no PS pode até ser transferida para outra cidade.

O médico plantonista do PS observou que houve redução nos investimentos voltados para tratamentos hospitalares em municípios da região. O resultado foi a intensificação do fluxo de pacientes na Santa Casa de Paranavaí. Na opinião de Leandro de Oliveira, muitas pessoas poderiam receber os cuidados adequados na cidade de origem, sem necessidade de encaminhamento para a Santa Casa. “Quando chegam aqui, precisam ser internadas e direcionadas para especialistas. Isso leva tempo e contribui com a superlotação.”

Para o gerente-financeiro do hospital, Marcelo Cripa, a Unidade Morumbi desafogaria de maneira significativa o sistema. O alívio seria temporário, já que as demandas de saúde são constantes e se avolumam, mas daria fôlego para a Santa Casa. Segundo ele, a superlotação do Pronto Socorro tem sido constante ao longo dos últimos dez dias, por isso é necessário que os novos leitos entrem em funcionamento o mais rapidamente possível.

UNIDADE MORUMBI – O novo prédio da Santa Casa de Paranavaí foi inaugurado em dezembro de 2018, pela então governadora do Paraná, Cida Borghetti. Na ocasião, ela assinou o convênio para a liberação de quase R$ 20 milhões destinados à compra de equipamentos. Por causa dos trâmites burocráticos e de questões administrativas, o primeiro setor médico só começou a funcionar em janeiro de 2021, com a transferência do Centro Macrorregional de Oftalmologia, coordenado pelo médico Rubens Costa Monteiro Filho.

A expectativa era começar parte dos atendimentos em março deste ano. A contratação de profissionais e a estruturação das alas hospitalares seriam feitas em etapas, mas a pandemia retardou o processo. Atualmente, a ala que abrigaria a UTI da Santa Casa está sendo utilizada pela Prefeitura de Paranavaí como hospital de campanha para pacientes com Covid-19.

Na última quinta-feira (6), o secretário-chefe da Casa Civil do Paraná, Guto Silva, esteve em Paranavaí e conversou com prefeitos do Noroeste do Estado. Questionado sobre as previsões para o início do funcionamento da Unidade Morumbi, que atenderá somente pacientes do SUS, ele garantiu que apresentaria ao governador Carlos Massa Ratinho Junior os pedidos de celeridade feitos pelos gestores municipais da região. Serão mais de 100 leitos.

FINANÇAS – De acordo com o diretor-geral da Santa Casa, a pandemia de Covid-19 desequilibrou as finanças do hospital. “O volume de gastos é muito grande.” Com os cuidados sanitários ainda mais rigorosos, a necessidade de equipamentos de proteção profissional cresceu, tanto quanto a de medicamentos específicos para pacientes internados na Ala Covid-19. Ao mesmo tempo, o valor dos produtos teve elevação. “A entrada de caixa é a mesma, mas com mais despesas.”

Arrais explicou que os recursos de um hospital filantrópico, como é a Santa Casa de Paranavaí, são provenientes do SUS e dos atendimentos particulares e de convênios. Não há lucro, apenas verba para folha de pagamento e manutenção dos leitos. Com a redução de leitos para pacientes particulares e conveniados e a paralisação temporária de cirurgias eletivas, os repasses diminuíram. Os efeitos mais severos poderão ser sentidos após a pandemia, disse o diretor-geral, quando as ações emergenciais terminarem. “Estamos buscando soluções rápidas para isso”, garantiu, afirmando que se trata da mesma realidade de hospitais de todo o Brasil.

ALA COVID-19 – No início da tarde de ontem, a Santa Casa de Paranavaí atualizou os números de internamento na Ala Covid-19, setor exclusivo para pacientes com Covid-19 ou sob suspeita. Entre os leitos destinados a pacientes do SUS, a taxa de ocupação era de 85% na UTI e 50% na Enfermaria, totalizando 22 pessoas, além de duas vagas de pacientes conveniados. Todos testaram positivo para coronvaírus.

Os internamentos mais recentes divulgados pela Santa Casa foram: um homem (36 anos) de Marilena; um homem (42 anos), de Alto Paraná; um homem (77 anos) de Paranavaí; e um homem e uma mulher (ambos de 53 anos) de Nova Londrina. No período de 24 horas entre segunda e terça-feira, a equipe registrou dois óbitos na Ala Covid-19, sendo uma mulher (59 anos) de Paranavaí e um homem (52 anos) de Santa Cruz de Monte Castelo.

 

Leandro de Oliveira apontou uma série de fatores que levaram à superlotação dos últimos dez dias

Foto: Ivan Fuquini

 

Héracles Alencar Arrais: “Precisamos dar o mínimo de condição, levando em conta o número de macas, camas e leitos”

Foto: Ivan Fuquini

 

Marcelo Cripa destacou a necessidade de funcionamento da Unidade Morumbi para desafogar o sistema de saúde

Foto: Ivan Fuquini

 

 

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.