SAÚDE

Na segunda-feira, a Secretaria Municipal de Saúde havia confirmado o 198º óbito em decorrência de complicações da doença. Ontem, a Santa Casa atestou mais três

No dia 22 de março de 2020, Paranavaí registrava o primeiro caso de Covid-19. O morador de 70 anos de idade tinha viajado para o Nordeste e fez escala de voo em São Paulo, uma das cidades que, naquele momento, tinham transmissão comunitária do coronavírus. Desde então, foram mais de 10 mil diagnósticos positivos, com recorde de confirmações em um único mês: maio teve 2.679 – o maior volume até então era de março deste ano, quando a cidade chegou a 1.538 exames positivados.

Se a quantidade de casos confirmados não para de crescer, é de esperar que a as mortes por Covid-19 sigam a mesma tendência. Na segunda-feira (31 de maio), Paranavaí havia alcançado 198 óbitos provocados por complicações da doença. Nesta quarta-feira (2), a Secretaria de Saúde confirmou mais cinco vítimas e o município ultrapassou a marca de 200 mortes, chegando a 203.

Homens e mulheres. Pais, mães, filhos, maridos, esposas, amigos, colegas de trabalho, vizinhos. São mais de 200 pessoas das mais diferentes idades, jovens, adultos, idosos. Mais de 200 histórias interrompidas.

A primeira morte foi em abril de 2020. A mulher de 40 anos de idade estava internada na UTI da Ala Covid-19 da Santa Casa. Chegou no dia 7 do mesmo mês, encaminhada pela equipe da Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24 horas) de Paranavaí. Tinha tosse, dor de cabeça, febre e desconforto respiratório. Foi submetida a uma tomografia, exame que constatou o comprometimento dos pulmões. No dia 8, foi intubada e precisou de auxílio de respirador pulmonar. O quadro clínico piorou e ela morreu no dia 14.

Situação inédita – “Nunca tinha visto uma situação como esta”, declarou o administrador dos cemitérios de Paranavaí, Amílcar Pereira dos Santos. Pelos cálculos dele, o número de sepultamentos diários teve elevação média de 45% durante a pandemia. “A mortandade cresceu. Somente no último final de semana foram 10”, contou. Embargou a voz ao falar de familiares que tiveram Covid-19 e morreram há menos de um mês. Quando vê os funerais, disse, a saudade aperta e o coração entristece.

Santos recordou que na década de 1970, viu muitos recém-nascidos e crianças morrerem por doenças que ainda não podiam ser combatidas com vacinas, ou pela inexistência do imunizante ou pela falta de acesso dos familiares. O momento agora é diferente e foge de todos os cenários que já vivenciou ou imaginou. “É assustador.”

Medidas restritivas – São 437 dias desde o primeiro diagnóstico positivo. 414 dias a partir da primeira morte. De lá para cá, a Prefeitura de Paranavaí estabeleceu diferentes estratégias de combate à pandemia, com base nas decisões do Comitê de Operação Emergencial (COE) e nas políticas de enfrentamento adotadas pelos governos Estadual e Federal. A medida mais recente, decretada na última sexta-feira (28 de maio), é a proibição da venda de bebidas alcoólicas, inclusive em sistema de entrega domiciliar, aos sábados, domingos e feriados.

Uma semana antes, no dia 21 de maio, a Prefeitura de Paranavaí havia estabelecido outras regras sanitárias, com restrições para atividades econômicas, visando à contenção da pandemia de Covid-19. O decreto ampliou o horário de fechamento dos estabelecimentos comerciais, empresariais, associativos e congêneres, incluindo atividades recreativas em logradouros públicos ou privados, clubes, quadras de esportes e academias. O texto manteve o funcionamento de restaurantes, lanchonetes, bares e atividades correlatas e shopping centers aos domingos, mantendo a abertura das 10h às 20h.

Os resultados das determinações ainda não foram traduzidos em números, já que o volume de confirmações de casos segue elevado e há um período mínimo de aproximadamente 10 a 15 dias para que a circulação viral seja contida. Para se ter uma ideia, no dia 20 de maio Paranavaí alcançou o recorde de diagnósticos positivos em 24 horas, 200. No dia seguinte, atingiu marca ainda maior, 252 em 24 horas. Depois, em prazo de 72 horas entre 21 e 24 de maio, foram mais 260 pessoas positivadas. No dia 1º de junho, outros 160 novos casos.

Preocupações – Secretária municipal de Saúde, Andréia Vilar avaliou que 200 “é um número muito alto de óbitos. Isso nos preocupa”. A perspectiva é que as medidas restritivas adotadas recentemente pelo poder público façam a transmissão do vírus e a curva de contágio caírem, mas o volume elevado de internamentos ainda deve permanecer por algum tempo. “Dias tenebrosos vêm por aí.”

A média de pacientes com Covid-19 internados na Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) é de 10 a 12 por dia. Mas a UPA não é estruturada para internações. Na busca por desafogar o sistema de saúde, a Administração Municipal abriu leitos de Enfermaria exclusivos para pacientes suspeitos ou com confirmação de Covid-19. Mesmo assim, a demanda tem sido além da capacidade instalada e outra preocupação recai sobre a secretária de Saúde: a necessidade de utilizar oxigênio em pacientes com problemas respiratórios cresceu vertiginosamente.

De acordo com Andréia Vilar, Paranavaí consumia de 40 a 60 torpedos de oxigênio por mês. Nos últimos 30 dias, precisou de 560. Por enquanto, alegou, as empresas que abastecem o estoque municipal têm conseguido manter as entregas em dia, mas não é possível definir até quando a situação se manterá assim e como serão as próximas semanas.

Mortes na Santa Casa – No início da tarde de terça-feira, a Santa Casa de Paranavaí informou que três pacientes haviam morrido na Ala Covid-19, todos eram de Paranavaí. A primeira foi uma mulher de 63 anos, internada desde o dia 24 de maio. Depois, um homem de 47 anos, hospitalizado no dia 28 de maio. Por fim, um homem de 45 anos, intubado, em estado grave, no dia 17 de maio. Além de pacientes de Paranavaí, a Santa Casa recebe pessoas de todo o Noroeste do Paraná e até mesmo de diferentes regiões do Estado, conforme a disponibilidade de leitos. Ao longo do fim de semana, a equipe havia contabilizado 11 óbitos provocados por complicações da Covid-19.

No final do mês passado, a Santa Casa divulgou um material audiovisual com depoimentos de profissionais que atuam na ala exclusiva para casos suspeitos ou confirmados de Covid-19 que requerem internação hospitalar. Também chamou a atenção para alguns números, revelando que 33% das pessoas que ocuparam leitos na Ala Covid-19 morreram. O texto faz um apelo: “A pandemia está em seu pico e pode piorar. Cuide-se, use máscaras, evite aglomerações, higienize as mãos. Mas, se puder, fique em casa. O vírus não se locomove sozinho. É o ser humano que o transporta”.

Manter os cuidados – Andréia Vila enfatizou a importância de manter as medidas de contenção sanitária. “A responsabilidade é de todos.” A secretária municipal de Saúde disse que o momento que o Brasil está passando é um dos mais complicados da pandemia de Covid-19, ou seja, é fundamental manter o distanciamento social, utilizar máscara de proteção facial, higienizar as mãos com água e sabão ou álcool em gel e só sair de case quando for necessário. E acrescentou: “Quanto maior for a circulação viral, mais pessoas precisarão de internação e mais mortes teremos”.

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