Seu Estanislau brigava com os cobradores que lhe batiam à porta. Viúvo, com três filhas e folheiro, confeccionava bacias. Punha-as às costas e saía a oferece-las. Pela quantidade de cobradores que dele se acercava, seu negócio não devia ir bem.
Um dia lhe ofereci araticuns maduros, e ele aceitou com um leve aceno de cabeça. E só. Colocou-os nos bolsos e entrou, mas não falou obrigado. Nem precisava, com as filhas que tinha, todas com olhos cor do céu, grandes, fluorescentes e ornados por tranças a lhes correrem as costas, bastava. Rafaela, Manuela e Graziela eram lindas. Mas foi por Graziela que meus olhos aprenderam a esticar olhares. Em busca dos dela. Que respondiam na intensidade os meus.
Os lábios da Grazi, de um rosado puxado ao vermelho do sangue, se desenhavam num sorriso… e por detrás do muro divisório dos quintais, eu aparecia para um ‘oi’. Não era um ‘oi’ qualquer, mas dito com ênfase dos meus quereres, ali onde a alma guarda o que mais bonito conservamos: o amor. Não sei se a amava ou aos seus olhos, mas aprendi a amar à distância de um olhar. Sem tempo de piscar. Amando-a no espaço de um quintal.
Foi um namoro só de olhar, porque o pai dela, bruto que era, se nos pegasse, não sei o que aconteceria. Pois entre os “ois” daqui e os “ois” de lá, meus olhos pidões encontravam os olhares afoitos e temerosos dela a criarem arrepios. Ocasiões que ela se punha a rir baixinho enquanto levava as mãos sobre o peito como quisesse afagar o coração.
Nossos olhares compunham uma poesia pura que os próprios olhos escreviam, e isso alucinava a arrepiar-me os pelos do corpo. Havia um desejo de criança que me levava a querer vê-la. O que me levou a muitas vezes andar pela extensão do quintal junto ao muro divisório, em meio aos pés de guanxuma, picão-preto e trevo azedo, à espera de que ela saísse à janela e derramasse sobre mim seus olhares buliçosos.
Os dela cantavam músicas de amor para os meus, ao tempo que os meus retribuíam o brilho dos dela junto a uma fala muda e sem gestual a nos enternecer entre quintais.
Inúmeros foram os vai-e-vem de um canto a outro, à espera de que ela aparecesse para o ‘oi’. Até que numa noite parou um caminhão. Fui para a porta e olhei.
Carregavam os móveis. Corri sem pensar. O muro deixou de existir. O medo do pai também. Meu coração sacudia, eu suava. Ela, entristecida, se aproximou e disse: -estamos indo. Mas levo o seu olhar. Beijou meu rosto, entrou no caminhão e partiu.
Sumiu na curva, mas seu olhar, não. Há amores que terminam sem terem começado, mas permanecem lembrados. O nosso ficou entre os “ois” cândidos e um muro. Para nunca envelhecer, talvez porque o amor não more no coração, mas, nos olhos.
Nota: Quem nunca namorou de zóio, perdeu um dos maiores privilégios da infância. Eles falavam melhor que a boca, e o coração entendia tudo.



