Labaredas cresciam em volúpia pelas paredes e se alastravam pelo espaço.
Varavam a janela em línguas inquietas. Volteavam nas paredes para retornarem potentes, enfiando-se pelos cantos. Alojavam-se compondo nichos. Resultado talvez de reação química exotérmica entre combustível e comburente, a liberar luz.
Assustei-me. De onde provinham? Não consegui decifrar a façanha.
Essas chamas, porém, não queimavam, mas causaram o medo que a visão do fogo produz, e carregavam a sensação destrutiva do fogo.
Tão esquisitas que me fizeram pausar, àquela hora na soleira, e permanecer sem saber se devia ou não me afastar. Ou se me punha a combater os inexplicáveis clarões de entusiasmados ardores. A noite era fechada.
Parado e temeroso na progressão sinistra, puxei pela memória a refazer atos que pudessem resultar nas chamas. E mais me acabrunhei. Na vistoria rápida dos atos, nada encontrei que pudesse apontar como possível causa. O fogo nascera espontâneo.
E tudo se dava de maneira trivial. Como são as coisas normais: o banho, as conversas, o aperitivo, o jantar a dois, o descanso, os remédios, a busca do sono na cama limpa e macia.
Epa! Lembrei. Por que não? Uma luz como de relâmpago trouxe-me à memória.
Quando fechamos os olhos para o sono, uma centelha se acende a burilar lembranças. E nos põe a reviver fatos recentes, ou até aqueles que desengavetam o passado. Geralmente é alimentada por um desejo dormente como cinza sobre brasa que, ao menor assopro, encandece e cria ansiedade e tormento.
As lembranças ferroam para o bem e para o mal. Naquela noite foi para o bem: não nasceram as labaredas espontaneamente, como pensara, mas da emoção que se transformou em centelha. Bem quando fechava os olhos para o sono; e se avivou em chamas que cresceram.
O que pensei? Não devo falar. Só a mim reservo o segredo.
Pensamento ardente e vigoroso que me fez ver fogo onde existia paixão. Que me causou calor onde havia desejo. Que me pôs expressão de espanto onde havia sorriso. E se expandiu em luz além do meu eu, para se elevar em voo na noite de Hipnos.
Nas retinas e na consciência atenta apesar da hora, o sonho alçou-se de prazer, e se volatizou em sensações. Daí a impressão de brilho na licenciosidade entre o suposto medo das “chamas” e o desejo insensato a voejar.
Algo excelente a imaginar, antes que o sono me levasse ao escuro da melatonina.
O que pensei? Bem, quando se tem ao lado alguém tão especial como você, mulher, os pensamentos viajam. Incendeiam-se a se transformarem luz para ganharem asas.
De labaredas.




