Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Compartilhe:

CRÔNICAS DO BEN

No silêncio, a voz

Há momentos em que o corpo pede paz.

Não há hora para isso. Acontece, simplesmente.

Os pés pedem chão fresco, os olhos pedem penumbra e os ouvidos, silêncio.

É o conjunto harmônico a compor serenidade, instante em que a alma se põe a falar.

Às vezes apenas sussurra, o que requer atenção especial.

Em outras, canta canções de ninar e fica a imitar a voz fina e suave de mãe à beira do berço. Uma voz que nasce no ontem, passa por um tempo indeterminado e chega para nos enternecer na plenitude da palavra. 

E o instante nos leva a um sentimento de afeto, compaixão e comoção.  Um quase flanar em vento morno. Um gozar a ternura de um quarto em penumbra. Sentimo-nos protegidos, albergados, acarinhados. 

Sentimo-nos acolhidos. E o tempo para o céu não troveja e nem se intromete o bem-te-vi estridente.

O tempo se torna só nosso. Para vivenciá-lo ao todo e por inteiro. Não importa quantos anos tenhamos, nem se temos saúde de ferro ou de serragem.

Se de manhã, à tarde, à noite ou de madrugada. E nem que estejamos em descanso, ou no exercício de alguma tarefa. Também não há previsão nesse intervalo. Apenas sentimos como se a voz nos invadisse e, nos tomando por inteiro, nos abraçasse.

A ocasião aparece como o estrídulo distante de um grilo na imensidão das horas, e nos alcança sem que ao menos o esperemos. Mas exige que estejamos a sós. Em plena solidão, mesmo que acompanhados. 

E a conversa será só nossa, íntima, pessoal e confidencial. Ela conhece nossos caminhos, as raízes que nos prendem à vida e as solas dos pés que nos trouxeram até aqui. Por isso, todo nosso corpo a escuta.   

E nessa introspecção, reconhece-a. Absorve-nos a voz; sentimo-la como afagos macios, na temperatura amena e segura. Confiável. 

Basta que lhe demos oportunidade. 

Abrindo-nos ao silêncio e à paz que ele traz.

A alma, e só ela, sabe o quando e o quanto pode nos falar. 

A nós, cabe ouvi-la.

Fonte: Renato Benvindo Frata

Compartilhe: