Há momentos em que o corpo pede paz.
Não há hora para isso. Acontece, simplesmente.
Os pés pedem chão fresco, os olhos pedem penumbra e os ouvidos, silêncio.
É o conjunto harmônico a compor serenidade, instante em que a alma se põe a falar.
Às vezes apenas sussurra, o que requer atenção especial.
Em outras, canta canções de ninar e fica a imitar a voz fina e suave de mãe à beira do berço. Uma voz que nasce no ontem, passa por um tempo indeterminado e chega para nos enternecer na plenitude da palavra.
E o instante nos leva a um sentimento de afeto, compaixão e comoção. Um quase flanar em vento morno. Um gozar a ternura de um quarto em penumbra. Sentimo-nos protegidos, albergados, acarinhados.
Sentimo-nos acolhidos. E o tempo para o céu não troveja e nem se intromete o bem-te-vi estridente.
O tempo se torna só nosso. Para vivenciá-lo ao todo e por inteiro. Não importa quantos anos tenhamos, nem se temos saúde de ferro ou de serragem.
Se de manhã, à tarde, à noite ou de madrugada. E nem que estejamos em descanso, ou no exercício de alguma tarefa. Também não há previsão nesse intervalo. Apenas sentimos como se a voz nos invadisse e, nos tomando por inteiro, nos abraçasse.
A ocasião aparece como o estrídulo distante de um grilo na imensidão das horas, e nos alcança sem que ao menos o esperemos. Mas exige que estejamos a sós. Em plena solidão, mesmo que acompanhados.
E a conversa será só nossa, íntima, pessoal e confidencial. Ela conhece nossos caminhos, as raízes que nos prendem à vida e as solas dos pés que nos trouxeram até aqui. Por isso, todo nosso corpo a escuta.
E nessa introspecção, reconhece-a. Absorve-nos a voz; sentimo-la como afagos macios, na temperatura amena e segura. Confiável.
Basta que lhe demos oportunidade.
Abrindo-nos ao silêncio e à paz que ele traz.
A alma, e só ela, sabe o quando e o quanto pode nos falar.
A nós, cabe ouvi-la.



