Debrucei os olhos no papel e, com lápis bem apontado, escrevi você. Não. Não o fiz com letras. Tracei contornos. A começar pela figura ovalada do rosto e, nela, a divisão do espaço em quatro partes. Na metade superior desenhei a testa, as sobrancelhas, os cílios curvos. Apontei melhor o lápis, alisei o grafite.
Voltei com cuidado aos olhos, às íris, às pupilas, às pálpebras e ali, só ali, vi que você me olhava.
Ah! Que prazer saber-se olhado. Da mesma forma como a vejo quando fecho os olhos e, em pensamento, vagueio por sua beleza. É assim que consigo vê-la por inteiro.
Agora, com seus olhos sem rosto parados em mim, olhei-os longamente. Eu inclinado sobre o papel; eles debruçados sobre mim. E ficamos assim, em silêncio: eu a pedir sua proximidade; eles a prometerem que você ainda estava ali.
Contornei o traço descendo ao seu nariz. Arrebitei-o um pouco, e não é que ficou uma graça?
O nariz é lindo, sabe por quê? Porque é o seu. Aliás, tudo que é seu é lindo!
E, como me faltasse luz suficiente, arrastei a mesa para perto da janela e meu olhar — que surpresa — distraiu-se pelo encanto súbito da sua beleza instalada em uma flor. Uma rosa vermelha, aberta, balançava-se ao encanto do vento morno.
Você estava nela, na maciez das pétalas, no verdor das folhas, no viço brilhante do quase vermelho. E ela pareceu-me a revelação de um segredo: pedia que pintasse seus lábios naquele tom e, tomando de novo o lápis entre os dedos, desenhei-os da maneira sugerida. Agora éramos três a conviver o trinômio amoroso. Você, a rosa e eu, no silêncio da tarde.
Um traço aqui, outro ali, um ajuste, um reforço e um apagar do excesso: você sorria no seu modo mais radiante. Espontânea e dadivosa. O sorriso puro, alinhavado pela paixão com fios de prata.
Momento perfeito para ser gravado a fogo na árvore, como fizemos com nossas iniciais no jatobá. Lembra?
— Oi, vô, está dormindo? Sou eu. Vim buscá-lo para o banho e o jantar de mingau que o senhor tanto gosta. Vem!
Era meu neto. Amparou-me e o segui a passos estreitos.
Pensei em lhe mostrar o desenho, os seus olhos brilhantes e o sorriso rosa-avermelhado, mas ele não entenderia. É novo ainda e não sabe que o tempo faz tremer as mãos, encurtar os passos, apagar traços. Só não modifica o amor, esse que sinto. É a emoção que nunca envelhece.



