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Atendendo na Santa Casa desde agosto de 2018 e morando na cidade desde janeiro deste ano, o neurocirurgião André Ricardo Stelndorff Malheiros já tem motivos para comemorar: o número de procedimentos cirúrgicos na especialidade saltou quase 600% – antes dele assumir eram realizadas entre uma e duas cirurgias por mês e agora são entre 10 e 12 no mesmo período.
“Quando chegamos percebemos que havia uma demanda reprimida e começamos a resolver as emergências”, explica o profissional, que também está atendendo no Centro Regional de Especialidade (CRE), mantido pelo Consócio Intermunicipal de Saúde da Amunpar, o que agiliza o processo entre a consulta e a cirurgia, ampliando o número de procedimentos. O crescimento no número de cirurgias só não é maior, porque a Santa Casa e o serviço de neurocirurgia ainda não estão habilitados pelo SUS como de alta complexidade. “Mas já estamos dando o segundo passo para conseguir a alta complexidade”, diz satisfeito, o neurocirurgião.
É que, com a sua participação, a Santa Casa conseguiu recursos junto ao Governo do Estado para aquisição de dois microscópios que viabilizarão cirurgias mais delicadas. “Poderia dizer que são equipamentos básicos na neurocirurgia, mas que o hospital ainda não tem. Nossa expectativa é de que até o final do ano os microscópios já estejam no hospital”, avalia.
Um destes equipamentos custa R$ 400 mil e destina-se ao serviço de otorrino, mas poderá ser utilizado pela neurocirurgia. O outro, de R$ 800 mil, é específico para as cirurgias encefálicas e de coluna. Com os equipamentos, serão viabilizados na própria Santa Casa as cirurgias para os casos de aneurismas, medula, tumores e vascular. “Algumas cirurgias, que consideramos até banais, estão sendo encaminhadas para outros centros, por falta destes equipamentos. Temos o profissional, uma boa equipe de enfermagem – dificilmente vai se encontrar uma equipe de enfermagem tão boa quanto aqui -, um bom centro cirúrgico, mas nos faltam estes equipamentos”, diz Malheiros.
Para se ter uma ideia, 85% das neurocirurgias são considerados procedimentos de alta complexidade, o que implica dizer que o significativo crescimento que o setor teve em pouco mais de um ano será pequeno perto do que pode acontecer com a habilitação do serviço como de alta complexidade.
Com a habilitação também será possível atrair novos neurocirurgiões para a cidade, avalia André Malheiros, que vem atendendo em Paranavaí principalmente casos de acidentes de trânsito e os casos de AVC (Acidente Vascular Cerebral), sendo que 80% são pelo SUS.
Além da aquisição dos microscópios e a eventual habilitação do serviço de neurocirurgia como alta complexidade, também deve contribuir para aumentar os procedimentos nesta área a implantação de novos leitos de terapia intensiva, atualmente limitado a dez. A Unidade Morumbi da Santa Casa, que deve entrar em operação em meados do próximo ano, terá mais 12 leitos de UTI. E em frente a Santa Casa está sendo construída outra unidade, com mais 13 leitos.
STROKE – Sem esconder que está feliz morando em Paranavaí junto com a esposa, que é médica pediatra, e os filhos, que se adaptaram bem a cidade, André Malheiros faz planos para o futuro. Ele e outros médicos pretendem montar na cidade um serviço de pronto atendimento para os casos de AVC agudo, utilizando o conceito chamado de Stroke Center, que envolve protocolos e procedimentos próprios desde a chegada do paciente, o rápido diagnóstico e a escolha (e aplicação) da melhor do tratamento. “Somos uma equipe que está trabalhando neste projeto e estou convencido que vai dar certo”, diz o neurocirurgião.
Na verdade, com as atuais condições da Santa Casa, André Malheiros é um profissional subutilizado. Ele é um dos três únicos neurocirurgiões pediátricos do Paraná e se frustra em ter que encaminhar para outros centros procedimentos que estava acostumado a realizar, por exemplo, no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, onde trabalhou de 2008 a 2018, até ser transferido pela Polícia Militar (onde é médico perito e tem a graduação de capitão) para o 3º Comando Regional, com base em Maringá.
E ele nem pensa em deixar a cidade. “Estou entusiasmado com o meu trabalho aqui. Fui muito bem recebido, minha família e eu. A Direção da Santa Casa me dá todo apoio. Aqui é um terreno fértil para quem quer trabalhar. A cidade nos acolheu muito bem e estamos felizes aqui. Sair por que?”, questiona ele.
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André Malheiros realizou na Santa Casa
cirurgia guiada por neuronavegação
Era uma sexta-feira de fevereiro deste ano, André Malheiros se posicionou no centro cirúrgico da Santa Casa junto com um médico assistente, o anestesista, uma enfermeira instrumentadora e dois técnicos do neuronavegador. Na mesa cirúrgica estava uma paciente de 72 anos com um tumor metastático no cérebro. Ao alcance do cirurgião, entre os equipamentos, estavam a pinça bipolar, aspirador e o pointer (a “caneta” do navegador que passa a localização do tumor em tempo real). Cerca de uma hora e quinze minutos depois, a cirurgia, que foi planejada no dia anterior, estava concluída, o tumor retirado e, logo em seguida, a paciente foi acordada e não apresentou nenhuma sequela. 
Procedimentos assim são comuns em grandes hospitais do país, como o Sírio Libanês, Albert Einstein ou Beneficência Portuguesa. Mas esta foi a primeira cirurgia guiada por neuronavegação realizada na Santa Casa de Paranavaí
Malheiros tem capacitação para realizar cirurgias nos casos de aneurisma, tumor de coluna e crânio, fratura de coluna, chegando até as cirurgias intrauterina, entre outros, mas falta a habilitação de alta complexidade.
“Temos que realizar estas cirurgias aqui. Dá mais conforto ao paciente, porque ele fica perto da família e economiza para o poder público, que não precisa ficar gastando com ambulância para levar e buscar estes pacientes”, explica Malheiros, que é um dos quatro especialistas do Paraná em neurocirurgia pediátrica. 
A cirurgia guiada por neuronavegação realizada no começo do ano foi a única até agora. Foi viabilizada através de um plano de saúde, que locou o neuronavegador de uma empresa especializada. Ele custa em torno de R$ 300 mil. O equipamento foi alimentado com imagens de uma ressonância que a paciente tinha feito na mesma semana, permitindo o planejamento antecipado da cirurgia. “É diferente quando você abre a cabeça do paciente para ver a localização exata do tumor. Com o neuronavegador a precisão é milimétrica, o que diminui riscos de sequelas, de sangramento, de eventuais complicações e de tempo de cirurgia. Tudo é mais seguro”, explicou na ocasião André Malheiros.
Apesar do sucesso desta cirurgia, a paciente que fez a primeira intervenção neurocirúrgica guiada por neuronavegação, passou dos dias na UTI após o procedimento, como prevê o protocolo nestes casos, e foi para o apartamento. Onde foi a óbito em razão de outras complicações.

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