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SAUL BOGONI
Em setembro e outubro de 2017, o Diário do Noroeste publicou uma série de 15 reportagens sobre a histórica façanha de três brasileiros – o tenente e aventureiro Leônidas Borges de Oliveira (Descalvado-SP, 25/04/1903-Santa Cruz de La Sierra-Bolívia, 31/03/1965); o autoconhecedor de Engenharia Francisco Lopes da Cruz (Florianópolis-SC, 03/02/1903-Mogi das Cruzes-SP, 24/12/1966); e o jovem mecânico Giuseppe Mário Fava (Bariri-SP, 24/01/1907-Paranavaí-PR, 09/01/2000) – que se cruzaram em um ideal. 
Entre 1928 e 1938, em dois “Fordecos” – como chamavam os carros motorizados da fábrica Ford da época -, eles cruzaram as fronteiras de 15 países das três Américas, saindo do Rio de Janeiro e seguindo até os Estados Unidos da América.
Percorreram quase 28 mil km em dois veículos providos de poucos recursos – batizados por eles de “Brasil” e “São Paulo” – numa jornada de 10 anos que precedeu o traçado da maior rodovia do mundo – a Rodovia Transamericana. 
Na fantástica aventura, eles superaram toda sorte de dificuldades, hora em montanhas, pântanos, rios e florestas, hora eram recebidos em merecidas e gloriosas recepções com autoridades, governadores e presidentes – como Getúlio Vargas, Roosevelt, Elliot Ness (aquele que prendeu Al Capone). Ness, inclusive, foi quem concedeu a autorização especial a Fava em Cleveland para dirigir nos Estados Unidos em 1936 e 1937, como diretor de Segurança Pública, já que ele não tinha habilitação. 
Ao retornarem ao Brasil em 15 de maio de 1938 foram recepcionados gloriosamente até pelo presidente Getúlio Vargas, que os homenageou com nomes de ruas – Mário Fava tem nome de rua no Rio, também chamada de rua Bariri, cidade onde nasceu – e, no caso de Leônidas, um cargo de embaixador na Bolívia. 
Ao reencontrar a mãe, depois de 10 anos de ausência, esta indagou a Mário Fava: “Por que demorou tanto?”. E ele, sorrindo: “Eu não sabia que era tão longe”. 
Aliás, este é o título do livro de autoria de Osni Ferrari mostrado na redação do Diário do Noroeste, nesta semana, pelo casal Regina Baggio e Roberto Machado de Moraes, entusiastas da história. 
Outros livros publicados são “Museu Mário Fava – Histórias de Bariri”, de José Augusto Barbosa Cava e “O Brasil através das Três Américas”, de Beto Braga.
Depois, os três heróis seguiram caminhos diferentes. Mário Fava anos mais tarde foi ajudar a desbravar o Norte do País, em Curitiba trabalhou na reconstrução do Aeroporto Internacional Afonso Pena de São José dos Pinhais, foi trabalhar também na abertura e planejamento de Brasília, a nova capital federal, montou uma oficina, trabalhou de tratorista, etc. 
Em 1962, aos 55 anos, não se adaptou ao ritmo da capital federal, inaugurada poucos meses antes, juntou as ferramentas da oficina mecânica que mantinha em Ceres e com o irmão Rubens, dois anos mais jovem, tomou o rumo de Paranavaí-PR, onde instalaram uma oficina mecânica e uma recauchutadora de pneus de caminhão (ao lado de onde foi construído o prédio da Automotor Paranavaí, em frente à atual lanchonete Ki-Kão, na avenida Heitor Furtado e onde atualmente funciona um bar). E por aqui ele e seu irmão ficaram por 38 anos, até falecerem e serem sepultados no Cemitério Municipal de Paranavaí.
De acordo com o guia de sepultamento da Prefeitura Municipal de Paranavaí e do Cartório de Registro Civil, Mário Fava morreu em 09/01/2000, poucos dias antes de completar 93 anos, na Santa Casa de Paranavaí, onde estava internado depois de um mal-súbito. 
O atestado foi expedido pelo médico Paulo Roberto Mortati (CRM-4764) e o corpo sepultado no dia 10/01/2000 na carneira simples 518 da Quadra 3DA do setor Padrão Único, Guia de Sepultamento e Atestado de Óbito 10.490, Livro C029, Folha 004. Era filho do casal João Fava e Cezira Mazucatti.
Além de nome de rua no Rio de Janeiro, Giuseppe Mário Fava foi homenageado com o nome do Museu de Bariri-SP, dedicado à Carretera Sul-Americana. A informação foi trazida ao Diário do Noroeste nesta semana pelo casal Sueli Regina Baggio (da família paranavaiense Alaíde Dal Poz e Adelino Baggio) e Roberto Machado de Moraes, que se encontra em visita a familiares locais. 
O casal reside atualmente em Campinas-SP e, tomando conhecimento do Museu através de um vídeo no YouTube, decidiu conhecer o local e inteirar-se mais sobre os feitos dos três heróis brasileiros, precursores do desbravamento da rodovia ligando as três Américas numa época de parcos recursos, mas muita coragem e destemor. No Museu, uma surpresa pra eles: foram informados que o corpo de Mário Fava estava enterrado em Paranavaí, onde residiu.
O Museu na verdade foi inaugurado em 1924 – segundo o folder oferecido pela instituição – para abrigar a sede da Sociedade Italiana de Assistência 4 de Novembro. Patrimônio histórico de Bariri, restaurado pela iniciativa privada, tornou-se a residência do Museu Mário Fava. Em estilo neoclássico, o prédio é a união perfeita de duas belas histórias. 
O Museu conta com um grande acervo de fotos da viagem e o automóvel original Ford T 1918, apelidado de “Brasil”. “Traz para os dias atuais a história que encanta os visitantes, impressiona os conhecedores de automobilismo e desafia a própria lógica. 
Contra tudo o que é razoável, a aventura dos três brasileiros atravessou as fronteiras físicas, políticas, sociais e as que nem podemos imaginar”, diz o texto do Museu.

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