Quantas histórias cabem dentro de 100 anos?
Num recorte centenário, o mundo viveu grandes transformações, passando por episódios como a Grande Depressão (1929), a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a queda do Muro de Berlim (1989), o fim da União Soviética (1991) e, mais recentemente, a partir de 2019, uma crise sanitária de escala global, a pandemia de Covid-19, declarada encerrada em 2023.
Mas vamos voltar a 1926. Em 21 de abril daquele ano, nasceu Elizabeth Alexandra Mary, a rainha mais longeva do Reino Unido, que permaneceu no trono durante 70 anos e 214 dias. Elizabeth II morreu em 8 de setembro de 2022, aos 96 anos de idade.
Aqui no Brasil, 1926 marcou o início de outra história, sem a pompa da realeza britânica, mas com enredo repleto de idas, vindas, encontros, desencontros e personagens da vida real que, assim como outras centenas de milhares de pessoas, ajudaram a construir o país.
Chegamos ao município de Palmeira dos Índios, em Alagoas. No dia 1º de agosto de 1926, o Brasil dava boas-vindas a Petronilho Alves dos Santos, filho de Manoel Alves e Ana Maria da Conceição e irmão de João, Pedro, Antônio e José.
Depois de deixar a terra natal, aos 14 anos, e viajar para o Sudeste e em seguida para o Sul, em busca de oportunidades de trabalho, viu o tempo afastar a família. Pais e irmãos repousam o sono eterno, a esposa, Francisca, partiu em 2009, mas Petronilho segue a caminhada pela vida.
Ele tem sete filhos, 18 netos, 16 bisnetos e um trineto. Recentemente, todos se reuniram para comemorar o centenário do patriarca, que mora em Paranavaí, no conjunto habitacional Luiz Lorenzetti, na região do jardim São Jorge.

Foto: Arquivo/família
“Seo Petronilho” – Terminada a festa, e com alguns dias de intervalo, “seo” Petronilho conversou com o Diário do Noroeste. A equipe de reportagem foi recebida na casa do filho Adelfi Alves dos Santos, na região do distrito de Sumaré, em Paranavaí.
Uma estrada rural leva até a residência. O quintal é grande, com árvore e gramado. Os cachorros andam tranquilamente pelo espaço amplo. Na sala estão Adelfi e a esposa Maria Lúcia. E sentado em uma cadeira confortável, o homem centenário.
“Seo” Petronilho conversa pausadamente, sereno, organiza os pensamentos e não tem receio de revisitar as lições que aprendeu durante a trajetória. A vida no campo ensinou a mansidão e moldou um homem reto e amoroso.
Pergunto o que vem depois dos 100 anos. A resposta é divertida: “Depois de 100, se fala o quê? Fala 101. Depois de 100, se fala 101”.
Ele está animado com a espera, faz planos para o próximo aniversário, quer ver a família reunida novamente, mas sabe que o futuro a Deus pertence e coloca o destino nas mãos d’Ele. “Eu acredito assim, pelo que eu aprendi, onde eu passei, que o homem põe, Deus dispõe. Nas alturas que eu cheguei, só sendo por amor de Deus.”
Homem de fé. Ser humano de coração grande. Pai orgulhoso. Ao falar da relação com os filhos, não titubeia: “Graças a Deus, [meus filhos me] valorizam, porque só eu sei o presente que eu tenho hoje. O meu presente foi caríssimo”. “E qual é esse presente?” “O presente que eu tenho é o amor. Se você for criar uma família e não houver amor, não tem nada.”

Foto: Arquivo/família
Depois de pouco mais de 30 minutos, entre memórias e sabedorias, “seu” Petronilho precisa parar. De forma educada, mas decisiva, sentencia: “Acho que já falei muito”. Talvez estivesse cansado.
Antes de terminarmos, insisto em uma última pergunta. “O senhor é um homem feliz?” Ele conclui: “Muito feliz. Se não tiver felicidade com o que eu tenho, o que eu vou querer mais? Nada mais. Sou feliz, graças a Deus”.



