Esta história foi vivida pelo Povo de Deus e pelos Freis Carmelitas na periferia de Curitiba.
…Muitas famílias vindas do interior do Paraná por causa da situação precária no campo, castigado pela forte geada de 1975, e pela pressão dos bancos que não perdoaram as dívidas e nem incentivaram os agricultores a continuar na terra. Alguns perderam a sua terra, outros tinham, por exemplo, três alqueires e não tinham condições de fazê-la produzir, por isso vieram, sem muito saber o que fazer, para a capital na esperança de encontrar uma vida melhor.
Chegando na capital os únicos lugares que restaram para elas eram as favelas na beira de valetões de esgoto a céu aberto, ou debaixo de viadutos.
Algumas dessas famílias foram parar na “FAVELA DO VALETÃO” na Vila Lindóia. Morando em favelas e trabalhando o dia inteiro, a situação veio a melhorar porque apareceu a Pastoral das Favelas. Nesta situação elas se lembraram de um tal Seu Manoel Francisco que rezava o terço na casa dele e convidava outras pessoas. As intenções pelas quais mais se rezava eram: pela fome, desemprego, saúde e a terra. As pessoas que participavam desta oração pediam que a mesma acontecesse em suas casas também. Os Freis Carmelitas começaram participar nessas orações com eles. Haviam interrogações sobre os mistérios e aí começaram a levar a Bíblia para as rezas para entenderem melhor os mistérios do terço.
Neste contexto os Freis Carmelitas sugeriram que se fizesse uma reunião em torno da Bíblia. O medo da Bíblia, por não conhecerem e não entenderem (Apocalipse: “4 Cavaleiros? “A mulher chorando e o dragão querendo devorar seu filho? “Os selos?”) e o sentirem-se envergonhados por morarem ilegalmente na terra (favelados), foi uma porta aberta para sentirem que a Bíblia falava deles e eles estavam presentes na Bíblia. Esta foi abrindo-se aos poucos, os mistérios foram sendo descoberto, o medo sendo perdido, ganhou-se mais coragem para a luta (“Quando começamos gritar, falar, já com aquela fé viva, os grandão começaram a ficar com medo da gente”)… Isto tudo sendo conseguido pela “dinâmica do tirar o véu”. “A gente estava como cego e tirando o véu, a gente começou a enxergar” “Nóis tinha medo de falar errado, então a gente ficava calado diante da Palavra de Deus”. O Frei Elias estava presente e nos ajudou, nos Círculos Bíblicos, a perceber a importância que tinha a partilha, “que era os dons que o povo sabia e não repartia. Descobrimos que deveríamos partilhar o que a gente sabia.
Por causa do desânimo e do medo do povo, Frei Elias contou sobre o Profeta Elias, então o povo se animou. A viúva de Sarepta e o Elias desanimado entrava tanto na luta da Comunidade, como na vida da gente. Nós não tínhamos o que por na mesa como a viúva (respondendo a isso foi criada a horta comunitária). “Elias esta no meio de nós; nós sentíamos o Profeta ao nosso lado”. Por isso a Comunidade recebeu o nome de Profeta Elias; e “O povo recebeu mais força para não parar de lutar”. “Muitos de nós não sabia o que era Associação de Moradores, Assembléia, Comunidade, Igreja” os Freis nos ajudaram a nos descobrir como IGREJA-POVO DE DEUS. E antes de ter onde morar tiveram a idéia de se construir onde se encontrar para rezar e lutar pela terra: SE ORGANIZAR. A CASA DA COMUNIDADE foi construída com doações e trabalho em mutirão, inclusive com a participação dos Freis. Após a construção da Casa da Comunidade os Círculos-Bíblicos passaram a ser realizados nela e junto das rezas do terço passou-se a invocar: “PROFETA ELIAS, ROGAI, POR NÓS E PELA NOSSA COMUNIDADE”.
A área que foi ocupada pertencia a particulares e a prefeitura ao que parece estava do lado deles. “Nas negociações na prefeitura nós nos sentíamos perdidos e o Frei Carmelita nos orientou como falar”. As negociações foram realizadas em clima de tensões, nervosismos e fé no Profeta Elias e na organização da Comunidade. Na negociação pela conquista da terra contamos com a ajuda de um advogado amigo de um frei Carmelita. Os acertos finais se deram na casa da Comunidade na presença do advogado dos proprietários, dos Freis Carmelitas, da Associação de Moradores e a comunidade. “Ao sabermos: a terra é nossa, foi uma festa”. Fomos em procissão ao Convento… Nossa Senhora do Carmo, nos acompanhou nesta passeata. O canto do Profeta Elias; no salão paroquial da Vila Fanny estavam o proprietário (segundo disseram até ele se emocionou e chorou) e os Freis Carmelitas, para a assinatura do contrato de compra e venda entre a Associação de Moradores e o proprietário da terra.
Houve uma FESTA DA CONQUISTA DA TERRA, onde numa celebração se relembrou essa História e se ergueu o mastro com a bandeira do Profeta Elias: “Para todos verem de longe a bandeira do nosso protetor”. E a cada ano esta festa renova…
(Narradoras: Grupo de Mulheres da Comunidade Profeta Elias. Estiveram na escuta e redigiram Frei Filomeno, Agustinho, Zequinha e Edmilson.)




