Região

O principal equipamento social do Instituto Maurício Gehlen (IMG), o Centro de Convivência do Idoso (CCI), está com suas atividades suspensas temporariamente. A suspensão aconteceu em março, quando a pandemia da Covid-19 chegou ao Brasil. O CCI oferecia gratuitamente atividades físicas, recreativas, desportivas, culturais e oficinas, como de artesanato, culinária, informática, a mais de mil pessoas acima de 60 anos, um dos grupos de risco propensos a ter complicações com a Covid.

Mas o trabalho social do IMG continua. Em junho foi instalada, em frente ao CCI, a terceira geladeira solidária e as duas lojas solidárias também continuam recebendo roupas, calçados e brinquedos, que são recolhidos mensalmente e encaminhados a entidades beneficentes de Paranavaí e região.

Na pandemia surgiu um novo projeto: a Cozinha do Amor, que leva comida a quem está necessitando. Ele começou a funcionar no final de abril e todas as segundas-feiras são produzidas, em média, 140 marmitas, que são distribuídas entre as geladeiras solidárias, trabalhadores da Coopervaí (a cooperativa de recicladores), famílias que recolhem materiais recicláveis no chamado Buracão da Vila Operária e famílias da Vila Alta. “Muitas pessoas estão sem trabalho e não tem o que comer”, diz Beatriz Gehlen, a Bea, coordenadora do CCI. Desde que começou, o projeto já distribuiu quase duas mil marmitas.

Ela e Jane Nunes de Lima, que era professora de Dança e Yoga no CCI e hoje é voluntária, lideram a equipe que ganhou o nome de “Os Fortes”. O trabalho de preparação da comida é realizado na cozinha do Centro. Nas segundas-feiras, as atividades começam às 7 horas.

Esta semana foi preparada uma galinhada (15 quilos de arroz e 10 quilos de frango). Mas o cardápio varia, com carreteiro, macarrão, polenta, carne de boi (geralmente moída), feijão e, quando há, legumes refogados.

Os alimentos são doados pela comunidade, mas principalmente por quem frequenta o CCI. “Muitos nos procuram. Acho que ficaram sabendo pelas redes sociais. Alguns trazem as doações aqui, outros telefonam e a gente vai buscar. Tem quem faz doação em dinheiro, que usamos para comprar marmitas, temperos etc. Mas sempre tem o que fazer”, conta Jane.

Kombi da Alegria distribui mais do que alimentos: também leva amor e animação

KOMBI DA ALEGRIA – Quando é hora da distribuição ou de buscar as doações, o grupo todo vai. Eles se deslocam numa Kombi do CCI, que já ganhou o apelido de “Kombi da Alegria”. Não é por acaso: em todo o deslocamento vai junto um aparelho de som, que é ligado assim que a carro começa a se movimentar. Cantos, risos e alegria, este é o clima no carro. “A gente trabalha, mas não se cansa. Quando você entrega uma marmita lá no lixão m(Buracão da Vila Operária), a gente só sente alegria nem pensa em cansaço”, diz Clarice Martim Pereira Amaral, que trabalha duas vezes por semana na manutenção do CCI. “A gente faz com amor. Esse trabalho não tem preço”, complementa.

“Depois que as atividades aqui foram suspensas eu consegui um outro emprego. Mas aceitei com uma condição: que nas segundas-feiras pela manhã pudesse estar aqui para ajudar neste trabalho”, revela a oficineira de artesanato Maria Valdete de Oliveira, a Val. Na mesma toada está Paola Catarina de Lima. “Formamos uma família. É gratificante participar deste projeto”, diz ela. Também participa do grupo Marcelo Gehlen(administração do CCI e condutor da Kombi).

No mês de junho, foi organizada visita a alguns idosos. Os voluntários se vestiram à caráter, selecionaram músicas de festa junina e foram visitar e recolher doações. “Foi uma festa. Mas nesse contato pude perceber o quanto o CCI é importante na vida deles”, conta Bea. Ela recebeu lamentos de saudades, percebeu que alguns estão tristes e outros “entrevaram” por falta de exercícios. “Eles sentem falta das atividades e da convivência. Quando falavam que adoravam o Centro, que aqui era um paraíso, achava que era para agradar. Agora sei o que realmente o CCI representa para eles”.

CREDIBILIDADE – Os idosos fazem a doação com satisfação, por gratidão, reconhecimento e credibilidade da entidade. O casal Maria Souza- José Augusto de Piza, ela com 76 anos e ele 81, frequentavam o CCI duas vezes por semana, fazendo atividades de hidroginástica, artesanato e a oficina Detox Emocional. Agora estão em casa e já contribuíram com alimentos e recursos financeiro. “Temos que fazer alguma coisa por quem está precisando”, diz o comerciante aposentado. “Nunca passei fome, mas sei o que é dificuldade. Como hoje posso ajudar, sinto-me no dever de ajudar”, complementa

Augusto de Piza não esconde a satisfação da convivência no CCI. “Nós somos bem tratados lá. Os professores e funcionários são todos muito educados”, enfatiza. Ele disse que optou pela ajuda aos necessitários através do CCI pela credibilidade da entidade. “A gente sabe que eles fazem tudo certo, correto”, enfatiza, apontando que assim que forem retomadas as atividades, ele e a esposa voltarão a frequentar o CCI. “Lá o ambiente é muito bom. Eu queria fazer mais coisas, mas o médico não recomenda. Então faço o que está autorizado”, arremata ele.

Rita Barbosa Dea, 66 anos, também ajuda o projeto. “Esta situação (as dificuldades por causa da pandemia) toca o coração da gente. Temos que fazer algo para quem está precisando”, diz ela, que há 23 anos é voluntária da APDE.

Dea ficava praticamente todas as manhãs no CCI. “Eu fazia de tudo lá: hidroginástica, yoga, dança de dança, dança folclóricas e outras. Meu Deus do céu, isto está fazendo muita falta. Lá é minha terceira casa. Tenho a minha, que é a primeira, a APDE, que é a segunda e o Instituto é a terceira”.

A pensionista revela que, além de contribuir com a Cozinha do Amor, ela própria, uma vez por semana, prepara marmitas e deposita na Geladeira Solidária.

– De onde sai tanta inspiração para a solidariedade?

“A minha filha diz que transformo a dor em amor. Sempre que tenho um problema, procuro ajudar alguém. Quem ganha mais é quem doa, não quem recebe. As pessoas têm que aprender a doar, a ser voluntária”, ensina ela.

Maria Odete Cardoso, 84 anos, outra que colabora com o projeto, relata que enfrentou dificuldades, agora tem condições e se sente bem em ajudar. “É um trabalho bonito que eles fazem lá”, diz ela, referindo-se ao CCI. Ela fazia hidroginástica, musculação, computação e dança folclórica. Odete participa de outros grupos e ensina artesanato voluntariamente.

Residente no Jardim São Jorge, diz que saia de manhã e ia a pé até o CCI, só na volta usava o transporte coletivo. “Me sinto feliz em poder ajudar”, me realiza poder doar”. Finaliza contando que aguarda o retorno das atividades: “lá a gente faz muitos amigos e várias atividades. É muito bom”.

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