Saúde

A doação de órgãos na Santa Casa de Paranavaí está se mantendo mesmo na pandemia do novo coronavírus, a Covid-19. “A morte cerebral não deixou de existir bem como a solidariedade da nossa população que mesmo diante da pandemia, que já é um fator estressante permaneceu compreendendo a dor e a necessidade do próximo”, diz a enfermeira Marcia Angelo dos Santos, coordenadora da CIHDOTT (Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante).

Nesta entrevista ela fala das medidas de segurança que foram adotadas por conta da pandemia e informa que os falecidos de Covid não podem ser doadores, já que a doença “é critério de exclusão absoluta para doação de órgãos e tecidos”. Ela indica de que apesar de os índices de doações estarem crescendo ainda é possível melhorar mais. “A recusa familiar ainda é uma dificuldade para que os transplantes aconteçam nas diferentes regiões do nosso país”, afirma a enfermeira Marcia dos Santos.

Leia, a seguir, a entrevista.

P – Como se comportou a doação de órgãos e tecidos a partir do mês de abril, quando começaram as internações na Santa Casa de Paranavaí de pacientes da pandemia da Covid-19?

R – Nós temos dois tipos de doador falecido. O paciente que tem seu falecimento com parada cardíaca que pode doar tecidos, nesse caso as doações e captações de globo ocular e córneas foram suspensas pelos órgãos competentes como medida de contensão para enfrentamento da disseminação do vírus já que o transplante de córnea é considerado um procedimento eletivo e os casos de emergências são avaliados pelos centros transplantadores.

Quanto ao doador falecido por morte cerebral que pode doar órgãos e tecidos essas doações continuam, mas seguindo as medidas de segurança preconizadas pelo Sistema Nacional de Transplantes e Central Estadual de Transplantes do Paraná. Com esse protocolo específico para o enfrentamento da pandemia os números de doações na Santa Casa foram dentro da média semestral do ano anterior e o Paraná lidera as doações e transplantes do Brasil.

P – Foi adotado algum protocolo especial pela CIHDOTT por conta da pandemia?

R – A pandemia chegou e mudou praticamente à rotina de todos e com a CIHDOTT isso também aconteceu. Foi preciso adequar nossas rotinas para atender as exigências da Central Estadual de Transplantes. Um exemplo é a coleta de teste para Covid de todos os doares de múltiplos órgãos e tecidos a fim de garantir a segurança dos transplantes e das pessoas envolvidas.

P- A abordagem dos familiares é sempre delicada. A pandemia da Covid, por ser uma doença ainda carregada de preconceito, alterou esta rotina?

R – O hospital e a CIHDOTT sempre valorizaram muito o acolhimento familiar entendendo que a família é de grande importância na hospitalização de qualquer paciente independente de ser um potencial doador. As pessoas continuam adoecendo por outras causas. A morte cerebral não deixou de existir bem como a solidariedade da nossa população que mesmo diante da pandemia que já é um fator estressante permaneceu compreendendo a dor e a necessidade do próximo. Cuidamos para que todas as medidas de segurança sejam respeitadas, mas o mérito da causa é realmente das famílias doadoras que mesmo diante do seu sofrimento pela perda do ente querido decidem por ajudar aqueles que aguardam na fila do transplante a espera de um órgão para a vida continuar.

P – Um doador contaminado com a Covid doa a mesma quantidade de órgãos do que um doador que tenha falecido por outras causas? Se não, quais órgãos ficam com prometidos pela doença e que não podem ser doados?

R – Não. A doença é critério de exclusão absoluta para doação de órgãos e tecidos, isto é, uma pessoa falecida por Covid ou suspeita não pode ser doador.

P – A Santa Casa já tem equipe para captação/retirada de órgãos para transplante? Se não, pretende implantar?

R – O hospital conta com profissionais capacitados e habilitados para cirurgias de retirada de tecidos (globo ocular e córnea). Quanto aos demais órgãos a retirada é realizada no nosso centro cirúrgico como qualquer outra cirurgia sendo que a equipe captadora vem de outros hospitais onde ocorrem os transplantes organizados pela Central Nacional de Transplantes (CNT), e Central Estadual de Transplantes do Paraná (CET-PR) e Organização de Procura de Órgãos – Maringá (OPO).

Sobre a pandemia: A morte cerebral não deixou de existir bem como a solidariedade da nossa população

Os profissionais que realizam a captação de órgãos são os mesmos que atuam nas cirurgias de transplantes, sendo assim o nosso hospital ainda não é centro transplantador o que pode ocorrer no futuro.

P – Estamos em setembro, mês dedicado a conscientização da importância da doação de órgãos e tecidos para transplantes. A pandemia prejudicou as ações de conscientização? O que a CIHDOTT da Santa Casa está fazendo este mês para conscientizar a sociedade sobre o assunto?

R – O Hospital Santa Casa de Paranavaí sempre buscou realizar ações de conscientização sobre doação de órgãos e tecidos para transplantes envolvendo a sociedade de uma forma mais próxima como campanha nas ruas, empresas, escolas, entre outros. Com a pandemia isso ficou inviável. A campanha deste ano está sendo realizada através de redes sociais como lives com grupos da sociedade, posts informativos e vídeos com o tema da campanha. Assim levamos informação e abrimos espaço para as pessoas esclarecerem suas dúvidas e tomar uma decisão de forma segura e consciente.

P – Qual a média de doações que são realizadas em Paranavaí? Conta-se por número de doadores ou pelo número de órgãos captados?

R – O número de doações é bem variável já que o número de morte encefálica é bem menor comparado ao número de mortes por coração parado no hospital. Entre os anos de 2015 quando iniciaram as nossas doações e o ano de 2019 nossa média foi de 9 (nove), doações de múltiplos órgãos (doadores que tiveram morte encefálica) enquanto as doações de tecidos (doadores de coração parado) a média foi de 19, por ano. De janeiro a junho de 2020 tivemos cinco doações uma a menos que o mesmo período do ano anterior. Isto é a média de doadores, mas contamos também os órgãos e tecidos captados. Um único doador de múltiplos órgãos pode ajudar a salvar várias pessoas já que são muitos os órgãos viáveis aos transplantes.

P – A população já está consciente da importância da doação de órgãos? Que vidas podem ser salvas com este gesto?

R – O número de doadores no Paraná, especificamente da nossa Macrorregião que contempla as regiões de Maringá, Cianorte, Campo Mourão e de Paranavaí representada pela OPO – Maringá atualmente mostra que sim, mas ainda temos muito que melhorar. A recusa familiar ainda é uma dificuldade para que os transplantes aconteçam nas diferentes regiões do país. Por isso o trabalho dos meios de comunicação é de fundamental importância para que a população possa criar uma consciência sobre a doação de órgãos uma vez que, a divulgação de informações ajuda no esclarecimento do tema que é tão delicado e importante para a sociedade. Reforçamos sempre a importância de falarmos sobre doação de órgãos com amigos e familiares, pois as pessoas, quando bem esclarecidas a respeito do assunto, são capazes de promover debates sobre isso, o que pode ser considerado também como uma grande estratégia porque todos temos o poder de influenciarmos alguém para ser um doador e salvar vidas.

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