Economia

A falta de chuvas no Sul do Brasil reduziu a vazão de diversos rios, como o Ivaí, Paraná, Uruguai e Iguaçu. Mas a seca ocorreu de forma diferente no Estado. Na região Noroeste, pesquisas do Grupo de Estudos Multidisciplinares do Ambiente (Gema) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) apontam que, no caso do rio Ivaí, um conjunto de características naturais e de interferência humana contribui para potencializar os efeitos da estiagem. A pesquisa é de Geógrafos, profissionais habilitados pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR). São 403 registros em todo o Estado.

Segundo o Geógrafo Eduardo Morais, pesquisador do Gema e especialista em Geomorfologia Fluvial – estudo de formas, processos e evolução da paisagem fluvial, na região de Maringá o rio Ivaí apresenta valores de vazões mínimas desde o início do ano, com agravamento no final de março, com o início da nova estação. A última vez que isto ocorreu durante o outono com intensidade parecida foi há 38 anos. “O nível baixo atual do rio durante o verão e o outono não é comum, há registros de comportamento similar nos anos de 1978 e 1982”, ressalta.

Ele ainda explica que há estudos que apontam que em algumas localidades da bacia hidrográfica as condições ambientais durante os períodos críticos das décadas de 1970 e 1980 eram piores que as condições atuais. As pesquisas que estão sendo desenvolvidas poderão elucidar a diferença entre estes eventos e a caracterização da duração, intensidade e o significado do nível atual do rio Ivaí.

Para o inspetor do Crea-PR na Regional Maringá, Geógrafo Erivelto Alves Prudencio, os estudos das condições hidrológicas das bacias fluviais são de grande importância para o processo de decisão do gestor público. “O Geógrafo tem capacidade de sintetizar os dados observados, transformando-os em informações capazes de orientar políticas públicas benéficas à população”, afirma. Em linhas gerais, os profissionais ajudam no equacionamento e solução de problemas relacionados aos recursos naturais do país.

Ainda de acordo com Prudencio, o meio ambiente é um tema corrente na ciência geográfica e correlaciona informações que afetam as atividades humanas e os impactos destas atividades no ambiente. “As pesquisas auxiliam no controle e redução das demandas que podem influenciar na escassez de recursos naturais e humanos, combinados a fatores climáticos de regimes pluviométricos que impactam na indústria, na agroindústria e também no atendimento às comunidades”, ressalta.

OS EFEITOS DA ESTIAGEM NO RIO IVAÍ – Atualmente, de forma parcial ou total, o rio Ivaí drena as águas de 109 municípios paranaenses. Sua extensão é de 671 quilômetros, a partir da junção dos rios dos Patos e São João, no município de Prudentópolis até a foz no rio Paraná, entre os municípios de Icaraíma e Querência do Norte. Considerando o alcance da nascente mais distante do rio Ivaí, a extensão total é de 798 quilômetros, medidas que foram aferidas pela pesquisadora Rafaela Fujita durante estudos no Gema. Da região Noroeste, o rio recebe as águas de municípios como Cianorte, Paranavaí, Loanda e Umuarama.

O Geógrafo Eduardo Morais esclarece que, de modo bastante simples, isso quer dizer que a chuva de pouco mais de 1/4 dos municípios do Estado escoa, ao menos parcialmente, até o rio Ivaí ou para algum córrego que fl ui até o rio. Segundo ele, o rio Ivaí tem uma enorme relevância ambiental para o Estado pelas atividades sociais, culturais econômicas e turísticas.

“Alguns municípios utilizam o rio e seus afluentes para abastecimento urbano e industrial; há tribos indígenas que possuem uma íntima ligação com o rio; atividades de pesca comercial e mineração; utilização para irrigação e abastecimento animal e também para o turismo e lazer com a pesca esportiva. Também existem usinas hidrelétricas na bacia hidrográfica do rio Ivaí. No entanto, o canal principal não possui barramentos, assim o rio Ivaí é o maior do Estado em extensão com funções ambientais preservadas. Apesar de o rio Iguaçu ser mais extenso, há uma série de barramentos que altera suas características fluviais”, afirma.

Morais reforça a necessidade de a população envolver-se e entender a função do rio, porque a consciência ambiental também é fundamental para a qualidade e a quantidade de água do rio Ivaí. “A população precisa compreender que o lixo que é descartado no chão da Avenida Tiradentes, em Maringá, encontra uma boca de lobo, escoa pelas galerias até o córrego, e então flui até o Ivaí. Similarmente, o líquido tratado que sobra da produção industrial (o efluente) chega também até o rio. Os pequenos córregos de áreas urbanas e rurais, muitas vezes são negligenciados, mas compõem o rio Ivaí. Quando se pensa em rio, deve-se considerar a rede de conexões de afluentes e o canal principal”.

Ainda para a preservação dos rios, além da conscientização ambiental da população, o Geógrafo destaca que também são necessárias medidas de amenização dos impactos nos rios com envolvimento de todos os usuários dos recursos hídricos (agropecuária, concessionárias de água, indústria, turismo, entre outros) e que não seja instalada obra que altere o fluxo do rio, como hidrelétricas.

DINÂMICA DOS RIOS – O Geógrafo Eduardo Morais explica que “as vazões mínimas ou inundações são ocorrências naturais e esperadas nos rios. No entanto, os estudos do Gema da UEM buscam entender como os fatores naturais controlam estas variações e como as atividades humanas têm potencializado esses processos. É que o rio Ivaí tem essa característica de períodos em que há uma elevada quantidade de chuvas, as inundações ocorrem com duração relativamente rápida. A mesma analogia aplica-se aos períodos de estiagem causando vazões mínimas”.

Em relação a essa dinâmica do rio, os resultados da pesquisadora Edilaine Destefani, participante do grupo de estudos, destacam que a forma alongada da bacia hidrográfica escoa as águas da chuva até o rio causando uma rápida resposta dos eventos de chuva. “Há também solos rasos e porosos, vertentes íngremes e rochas fraturadas, que caracterizam o escoamento e causam as cheias e até as inundações. Outro fator responsável por esses fenômenos é a interferência humana, com o uso intensivo das terras no entorno do Ivaí, o que potencializa o escoamento quando há um elevado volume de chuvas”, afirma Morais.

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