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O autor é Secretário de Saúde do Paraná

ARTIGO

Sobre fraternidade e o desafio histórico da moradia

Em um país marcado por uma enraizada desigualdade social, colocar o direito à habitação no centro do debate é uma ação absolutamente necessária. E é a partir dessa ponderação que a Campanha da Fraternidade 2026 recebe o tema “Fraternidade e Moradia” extraído do Evangelho segundo João (1,14): “Ele veio morar entre nós”. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos convida a refletir sobre aquilo que sustenta qualquer projeto de nação: a dignidade humana expressa no direito de habitar.

Como cristão, sei que a encarnação é o gesto do Deus que escolhe viver a nossa realidade. Como gestor público e ex-prefeito, aprendi que morar não é apenas ocupar um espaço, mas ter segurança, endereço, acesso a serviços e a possibilidade concreta de construir um futuro.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhece a moradia como parte essencial de um padrão de vida digno. Não se trata de benefício eventual, mas de direito. Casa adequada significa proteção à saúde, estabilidade para as crianças, melhores condições de aprendizado e menos vulnerabilidade social

Na prática, a ausência de moradia digna impacta diretamente o sistema de saúde: aumenta a incidência de doenças, dificulta o acesso a serviços básicos e aprofunda desigualdades. Investir em habitação é, portanto, garantir o alicerce de qualquer condição de existência digna

Sabemos que essa discussão não é nova. Ainda nas Reformas de Base propostas pelo presidente João Goulart, a reforma urbana já aparecia como eixo estratégico para enfrentar desigualdades estruturais. Evidentemente, este projeto teve interrupção ainda em período embrionário. O tempo passou, novas dimensões sociais surgiram e o desafio, que já era imenso na década de 60, ganha ainda mais camadas na contemporaneidade

Falar de enfrentamento exige coragem e planejamento. Urbanizar, regularizar, levar saneamento, iluminação e equipamentos públicos aos territórios mais vulneráveis é integrar pessoas à cidade formal. A constituição de 88 trouxe avanços importantes acerca do tema. Mas é preciso mais.

Se queremos um país mais justo, comecemos pelo essencial: garantir que cada família tenha um lugar seguro para morar. E por segurança não me refiro apenas à proteção contra violência urbana, mas sim a possibilidade de ter, a partir da residência, uma garantia plena do acesso ao lazer, à saúde e à educação. Afinal de contas, dignidade, senso de coletividade e a própria fraternidade começam pela porta de casa.

Fonte: Beto Preto

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