O Brasil é um grande túmulo que devora as esperanças da maioria de seus habitantes. Muita gente tem razão de se queixar: “Nossos ossos estão secos, nossa esperança está desfeita. Para nós tudo está acabado” (Ez 37,12-14). Nosso país está cheio de Lázaros, Marias e Martas, e o consolo que eles recebem são pêsames e amarras sempre mais consistentes (Ev 11,1-45). A esperança vem da Palavra de Deus. Ele tira dos túmulos e por seu espírito faz reviver. Jesus mostrou que a morte não tem a última palavra.
A ressurreição de Lázaro é o sétimo sinal do quarto evangelho. A função do sinal é levar as pessoas a tomar partido: a favor de Jesus e da vida, ou contra ele e a favor da morte. De fato Marta crê que Jesus é a Ressurreição e a Vida, ao passo que as autoridades político-religiosas dos judeus declaram a morte de Jesus. A ressurreição de Lázaro é também o ponto alto da catequese batismal das primeiras comunidades cristãs. Esse episódio pretende conduzir as pessoas à profissão de fé em Jesus-Vida. A ressurreição de Lázaro é apenas um sinal que aponta para uma realidade maior e mais profunda: a vitória de Jesus sobre a morte e sua glorificação.
Lc 8,40-53 – Jairo um chefe da sinagoga pedindo-lhe que socorra a filha, uma menina de 12 anos.
Lc 7,11-17 – Durante a sua viagem, Jesus se aproximou de uma cidade chamada Naim. No momento em que entra nela, sai um cortejo fúnebre – o morto é o único filho de sua mãe, uma viúva. A dor desta é sentida pelo Senhor, que fala: “Não chores!”
Jo 11,1-45 – “O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá para o despertar”. Quando chegam a Betânia, o morto já está no túmulo. Na casa, um agitado vaivém; amigos e curiosos visitam as irmãs do defunto. Elas cheias de dor acolhem o Mestre e Amigo com estas palavras: “Se cá estivesses, Senhor não teria morrido meu irmão!” Ele teve um frêmito “em sua alma e perturbou-se”. Dirige-se ao túmulo e começa a soluçar.
As circunstâncias são diversas. Da primeira vez, encontra na estrada, o cortejo. Depois é o pai da criança que O vem buscar. Quanto a Lázaro, parece ver em espírito o que lhe aconteceu… Na borda do lago, é uma criança que morre; em Naim um jovem; em Betânia, Lázaro, um homem – como se a morte se mostrasse cada vez mais forte, colhendo vidas sempre mais maduras. E também como se a morte se realizasse cada vez mais profundamente: a criança mal acaba de morrer, o jovem está sendo levado ao cemitério, e Lázaro está desde alguns dias no túmulo. As circunstâncias são assim diferentes a vários títulos; mas o essencial subsiste da mesma maneira em todas: Cristo chama o Espírito que voltara à pátria para a existência terrestre. Renova a vida extinta. A existência interrompida recomeça. Os pais da criança não realizaram ainda inteiramente que ela morreu a mãe do jovem demais o sabe; na casa de Lázaro, há muito reina o frio vazio da morte – mas de cada vez o inacreditável se consuma, uma existência que chegara ao seu termo, reinicia-se.
Mas enquanto a intervenção de Jesus tem em Naim, o caráter de um serviço fácil feito de passagem; enquanto em casa de Jairo, é íntima, secreta, recompensa da confiança, ela é pública em Betânia.
Jesus vai então ao túmulo; “freme em espírito” duas vezes e realiza a ressurreição de Lázaro no meio de uma emoção intensa. Vê a sua própria morte na morte do amigo. O brado que o faz voltar à vida é pronunciado com uma voz poderosa e faz-nos pensar no grito forte que lançará uma outra vez na cruz (Mt 27,46). Aqui, na luta para fazer o seu amigo regressar á vida, Cristo combate com a própria morte e antecipa a vitória da sua própria ressurreição. Jesus é tocado por um destino humano. O sofrimento humano vem até Ele, o de um pai e de uma mãe, o de duas irmãs sós. Apresenta-se a Ele a imagem de uma existência destruída pela morte misteriosa. É dito como este espetáculo o emociona. Penetra neste destino e ordena em função dele o devir do mundo. Por um curto instante, graças ao amor do Salvador, o coração humano forma o centro determinante do devir do mundo.
O par de anos de uma vida humana, os dez anos de solidão que restam à pobre viúva, contam mais para Deus do que todo o tempo necessário a todos os sistemas solares para se fazerem e refazerem. Jamais Deus sacrificaria um coração humano para que Sírio ou a nebulosa Andrómeda continuassem intactas. Mas quando, aos da ciência santa, um sofrimento humano não atinge por outro modo o sentido que lhe é atribuído, Deus chama por causa dele as leis da natureza para um serviço superior e excepcional. E isso é bom e pleno de sentido – e também em relação à lei natural, para que esta não seja idolatrada e antes vista naquilo que é. Nestes acontecimentos o mundo revela-se, tal como Deus o vê; do interior, em função do coração humano e do destino humano. E, revela-se também quem é Deus: Aquele que atribui um tal valor ao destino humano. Não é o Deus do sistema do Universo, o Deus astronômico. Ou antes, é-o também, mas isso não é senão o trono da sua glória. Não é também o mestre da história, modelando os destinos humanos a esquemas de sentido divinos. É o Deus do coração.
Frei Filomeno dos Santos O.Carm.




