O ontem se mostra límpido quando o olhamos através do vidro que guarnece nossa alma.
Nessa miragem consegue trazer os movimentos, as cores, os sabores, os sorrisos e choros que o compuseram. O interessante é que independentemente do tempo que fluiu, as figuras que ainda bailam não perderam a nitidez, nem o brilho e esplendor.
Talvez, por isso, na velhice nos agarramos às lembranças.
Diante dela conseguimos rir, nos emocionar e suspirar como a reviver o que revemos, e nos acabrunharmos ou regozijarmos dos instantes perpetuados.
Isso também é vida! A essência que ficou no ontem, ganha nova vivência.
Do lado de cá dessa janela protegida, revivo.
Coisas simples, sem qualquer valor que não o da saudade, mas valem o registro. Afinal, tudo vale quando a lembrança é boa.
As ruas farinhadas de terra vermelha tinham o sol, o vento buliçoso e os muitos caminhões a pulverizarem para o todo a poeira instável.
A terra roxa sem asfalto se espalhava jogada nos deslocamentos de vai-e-vem dos veículos. E tudo se transformava num marrom adensado a zanzar finíssimo, e impregnar onde a sujidade já era constante.
Na minha casa, ao lado da torneira do quintal, o tanque entupido de lençóis, fronhas, panos de prato, toalhas de mesa, rosto, banho, roupas de uso diário lavados por duas vezes na semana.
Ou quantas se necessitasse.
Minha mãe usava sabão de soda – que fazia com cinza, para lavagem pesada. Depois de boa esfregada, mergulhava as peças em água de anil que – dizia – limpava o espírito das roupas.
E rezava cantando com voz de piedade, em tristeza. Para si, apenas.
Eu, abelhudo, é que cismava entender o que dizia. Igual ao anil que branqueava as roupas, as orações dela branqueavam sua alma.
E o milagre acontecia: – as peças amarronzadas se tornavam translúcidas a balançarem nos varais, a despeito da poeira.
Bendita é essa vidraça: transparente o bastante para deixar passar a luz e me permitir ver – e sentir aquilo que permanece.



