Ter dívidas não parece ser uma preocupação do brasileiro, mas deveria. Uma pesquisa realizada pela Dinx – ecossistema gamificado de educação financeira para crianças – revela que apenas 9% das famílias entrevistadas consideram que gastar menos do que ganham é uma boa conduta financeira, mesmo percentual daqueles que acham importante controlar ganhos e despesas por meio de planilhas. E somente uma em cada quatro famílias brasileiras (24%) afirma que organizar as contas é uma habilidade necessária.
Os dados da pesquisa da Dinx escancaram algumas das causas de um problema crônico. Lidar com o endividamento familiar com uma taxa de juros na casa dos 33% ao ano, segundo patamar registrado em fevereiro pelo Banco Central, representa um forte desafio, acentuado pela falta de conhecimento das famílias brasileiras sobre educação financeira.
“Qualquer família que tenha mais de 30% da sua renda comprometida com dívidas precisar ligar o sinal de alerta”, adverte Lúcia Stradiotti, head de Educação e Metodologia da Dinx. Isso porque os juros compostos que incidem sobre dívidas que não são pagas integralmente podem, rapidamente, comprometer o orçamento familiar. “É o caso da situação em que a pessoa paga apenas o mínimo da fatura do cartão de crédito. Com isto, pequenas dívidas podem se tornar grandes, rapidamente, levando ao efeito bola de neve.”
A percepção das famílias sobre essa questão dá pistas sobre as causas do endividamento, à medida que muitas pessoas não se consideram endividadas quando não há atraso no pagamento de contas, segundo apontou o presidente do BC, Gabriel Galípolo.
A Dinx revela ainda alguns pontos sensíveis na gestão do orçamento doméstico devido à falta de conhecimento das famílias sobre finanças. Um deles é o fato de não entenderem o que são juros compostos, apontado por 21% dos entrevistados, o que se agrava no cenário em que o uso do crédito rotativo do cartão de crédito é visto como renda disponível, embora os juros dessa modalidade, segundo o BC, já tenham chegado a 15% ao mês, com um índice de inadimplência de 60% em fevereiro.
Além disso, 39% das famílias relataram não saber como investir o seu dinheiro; 33% disseram não ter reserva de emergência e 24% têm sentimentos negativos em relação à sua vida financeira. Apesar disso, os entrevistados atribuíram a nota média 8 aos seus conhecimentos na área financeira.
“Há uma discrepância entre a nota que eles atribuíram ao seu conhecimento sobre educação financeira e a capacidade de aplicá-la, na prática, junto aos filhos”, destaca Gabriel Araujo, CEO da Dinx, ao citar que apenas 6 em cada 10 entrevistados afirmaram ter “muito ainda que aprender”.
Ele observa que “a maioria dos pais acha que educação financeira é ensinar a calcular juros. Não é. É ensinar a escolher, a esperar, e a lidar com o não. Só que quase ninguém aprendeu isso na própria infância, então, muitas vezes, não sabemos como ensinar”.
As pessoas que chegam em um alto nível de endividamento do cartão, segundo a head de Educação e Metodologia da Dinx, não percebem que a situação chegou a um ponto crítico, e isso requer mais do que entender de juros, mas exige uma mudança de comportamento.
“Muitas pessoas que se endividam no cartão de crédito fazem isso por não conseguirem lidar com a frustração de não ter algo e ter que esperar o momento certo para comprar”, observa Lúcia Stradiotti. Por isso, é importante entender que educação financeira não é sobre dinheiro, mas sobre comportamento. “Se isso não estiver claro para os pais, dificilmente os filhos serão capazes de aprender a lidar com a frustração decorrente, por exemplo, de um desejo não atendido”, completa.




