A reforma tributária brasileira deixou de ser um debate técnico para se tornar uma realidade operacional. Desde o início de 2026, o país entrou oficialmente na fase de transição para o novo modelo de tributação sobre o consumo — e o impacto já começa a atingir empresas de todos os portes, mesmo que muitas ainda não tenham percebido.
A mudança é estrutural. O novo sistema substitui tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por um modelo dual de IVA, formado pela CBS (federal) e pelo IBS (estadual e municipal), além do Imposto Seletivo. Na prática, isso altera a forma como empresas precificam, contratam, organizam seus dados fiscais e até definem sua estratégia de operação.
Apesar da dimensão da transformação, o nível de preparação ainda é baixo. Um levantamento recente aponta que 33,2% das empresas sequer discutiram internamente os impactos da reforma, enquanto apenas 28,1% afirmam ter um plano estruturado de adaptação.
O descompasso entre a velocidade das mudanças e a reação do mercado acende um alerta. A reforma já exige ajustes concretos, como a adequação de sistemas fiscais, revisão de cadastros e preparação para novos campos obrigatórios em documentos eletrônicos.
Mais do que uma mudança tributária, trata-se de uma transformação operacional profunda. A qualidade dos dados fiscais, por exemplo, passa a ter impacto direto sobre o lucro das empresas, já que o novo modelo amplia a importância do aproveitamento de créditos tributários e da conformidade das informações.
Para Danniel Stehling Fernandes, advogado tributarista, o maior risco está na falsa percepção de que ainda há tempo para reagir. “A reforma tributária não começa quando a cobrança muda, ela começa quando a forma de operar muda. E isso já está acontecendo. Empresas que não revisarem seus processos agora podem carregar erros que vão impactar diretamente o caixa nos próximos anos”, afirma.
O cronograma reforça esse senso de urgência. Os CBS e IBS já aparecem em fase de testes, com alíquotas iniciais simbólicas, enquanto a cobrança efetiva começa a partir de 2027, com transição gradual até 2033.
Esse intervalo, no entanto, não deve ser interpretado como um período de espera, mas de preparação. A adaptação envolve revisão de contratos de longo prazo, reavaliação de regimes tributários, reorganização de cadeias de fornecimento e atualização de sistemas tecnológicos.
“O empresário que olhar apenas para a alíquota vai errar o diagnóstico. O impacto maior está na estrutura: como ele compra, vende, o registra e aproveita créditos. Isso muda completamente a lógica tributária do negócio”, complementa Fernandes.
Além disso, a reforma altera a dinâmica competitiva entre empresas. Com a padronização das regras e redução de benefícios fiscais regionais, decisões estratégicas como localização de operações e estrutura societária passam a exigir uma nova leitura econômica.
Em um país onde a carga tributária representa cerca de 33% do PIB, sendo grande parte concentrada no consumo, mudanças nesse modelo têm potencial direto de influenciar preços, margens e competitividade.
O ponto central é que a reforma já saiu do campo da teoria. Ela começou e está acontecendo dentro das empresas, nos sistemas, nos contratos e nas rotinas fiscais. Ignorar esse movimento pode não gerar impacto imediato. Mas, no médio prazo, tende a custar caro.
Sobre – Danniel Stehling Fernandes é advogado com mais de 20 anos de experiência nas áreas cível, tributária e imobiliária. Bacharel em Direito e pós-graduado em Direito Tributário pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como diretor jurídico em diversas empresas, com forte atuação em contratos, planejamento tributário e contencioso judicial.




