A recém-inaugurada Ponte de Guaratuba, esperada há cerca de 40 anos e construída para substituir a travessia por ferry boat entre Guaratuba e Matinhos, virou neste fim de semana mais do que um marco de infraestrutura no Paraná. No sábado (2) e no domingo (3), a estrutura fez parte do percurso da 1º Maratona Internacional do Paraná, reunindo cerca de 20 mil atletas ao longo dos dois dias de prova.
Entre eles estava a educadora física e personal trainer Kátia Fernandes Vieira, de 35 anos, moradora de Paranavaí, que fez dos 10 quilômetros um desafio duplo, o de completar a carrida e o de enfrentar dois medos antigos.
“Foi uma sensação maravilhosa. Eu estava muito ansiosa para essa prova, porque eu tenho medo de altura e eu tenho medo de água”, contou.
A maratona teve percursos de 5 km, 10 km, 21 km e 42 km entre Guaratuba e Matinhos. No domingo, as provas de 10 km e da maratona começaram a partir das 6h, com presença de corredores de elite, atletas com deficiência (PCD), amadores de várias regiões e o pelotão da inclusão. Segundo a organização, a passagem pela ponte foi o ponto alto do trajeto, mesmo sob céu fechado, garoa e ventos fortes.

No caso dos 10 quilômetros, o percurso exigiu um grande preparo físico. Foram duas subidas e duas descidas entre ida e volta sobre a ponte, além do vento costeiro e da alta umidade. Em compensação, os corredores também encontraram trechos planos pelas orlas de Matinhos e Guaratuba, o que ajudou na recuperação do fôlego e na manutenção do ritmo.
Para Kátia, o desafio foi muito além da altimetria. Antes da largada, ela chegou a dizer ao marido que talvez não conseguisse correr sobre a ponte, mas que foi encorajada pelo companheiro que sempre a apoio no esporte. Foi com medo mesmo que decidiu seguir. “A vista compensou. Tudo o resto compensou, porque a gente correu mais ou menos uns três quilôetros em cima da ponte, foi ida e volta, e depois a gente pegou um percurso na orla. Então você tinha toda a vista do mar para correr”, disse.
A relação dela com a corrida começou ainda na infância, nas gincanas escolares. Mais tarde, já como estagiária de educação física, participou da primeira prova de 5 quilômetros e seguiu correndo por um tempo, até parar para cuidar dos joelhos lesionados e dar conta da intensa rotina de trabalho. O retorno veio há cerca de um ano e eio, depois do convite de uma aluna para integrar um grupo de corrida às 5h30 da manhã do Instituto VC Run. Desde então, ela conta já ter participado de mais de 20 provas.

Hoje, Katia conta que a corrida ocupa um lugar que vai além do esporte.
“A corrida é a minha terapia. É o único momento que eu tenho só para mim”, afirmou. Na avaliação dela, participar de uma prova grande como a de Guaratuba também muda a forma de enxergar os próprios limites. “Não é sobre pace, não é sobre velocidade, não é sobre você ser melhor que a outra pessoa. É sobre você”, resumiu.
Em meio ao cenário da ponte, da orla e de milhares de atletas, o que mais chamou a atenção da corredora foi justamente o contraste entre esforço físico e superação pessoal. Ela contou ter visto cadeirantes, crianças especiais, pais correndo com filhos em cadeira de rodas e mulheres em tratamento contra o câncer.
“Ali, naquela prova, com quase 16 mil pessoas, tinha muita superação mesmo. Ai que a gente percebe que não temos problemas, difícil não chorar vendo aquela emoção nos olhos deles.”, disse.

A prova também terminou com um belo resultado para a atleta de Paranavaí. Kátia contou que ficou na colocação 154º no geral e em 31º lugar na categoria, conquista que ela trata como reflexo da dedicação, mesmo com uma rotina puxada de trabalho. Em sua entrevista ao Diário do Noroeste Kática compartilhou a rotina que começa às 4h30 e termina por volta das 20h, mas ainda assim encontra tempo para treinar. “Quem quer, dá um jeito. Quem não quer, arruma desculpa”, afirmou.
Ao fim de um fim de semana em que a nova Ponte de Guaratuba serviu de cenário para uma das maiores provas do calendário estadual, a experiência ficou marcada para a corredora de Paranavaí como mais uma etapa de reencontro com ela mesma. “Eu me reencontrei na corrida e não pretendo parar nunca mais”, disse.



