Neste mês de maio, o Brasil celebra três décadas do sistema eletrônico de votação, uma das inovações institucionais mais significativas da democracia brasileira. Mas o aniversário chega acompanhado de um dado que exige atenção: apenas 53% da população afirma confiar nas urnas eletrônicas, segundo pesquisa da Quaest divulgada em fevereiro deste ano. O número representa uma queda expressiva em relação a 2022, quando levantamento do Datafolha, divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apontava que 82% dos brasileiros confiavam no sistema, sendo 48% com muita confiança e 34% com alguma confiança.
O contraste entre os dois levantamentos traduz o avanço das narrativas de desinformação e o impacto crescente dos ataques à integridade do processo eleitoral brasileiro.
Levantamento do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia, analisou 716 mensagens relacionadas a ataques às eleições e desinformação nos dois últimos ciclos eleitorais — 2022 e 2024. Os dados mostram que mais de 45% dos conteúdos (326 mensagens) tratam do funcionamento da urna eletrônica, confirmando que a tecnologia segue sendo o principal vetor das narrativas desinformativas.
Na sequência, aparecem conteúdos voltados à ofensiva contra o STF e outras autoridades (194 mensagens, 27,1%), teorias de fraude na apuração dos votos (156 mensagens, 21,8%) e desvirtuamento de regras e logística eleitoral (110 mensagens, 15,4%).
A pesquisa identificou exemplos emblemáticos de desinformação em cada categoria. Nos ataques às urnas, destacam-se o boato sobre um suposto “delay” no botão confirmar e a falsa alegação de que o equipamento preencheria automaticamente os números digitados pelo eleitor. Nas teorias de fraude na apuração, ganharam força mensagens afirmando que “7,2 milhões de votos foram anulados pelo TSE” e narrativas sobre supostas viradas artificiais de votos em horários específicos da totalização.
Na ofensiva contra o STF e autoridades, predominam conteúdos que buscam descredibilizar ministros, com destaque para Alexandre de Moraes, por meio de falsas ordens de prisão, cancelamentos de vistos e associações a grupos criminosos. Já no campo do desvirtuamento da logística eleitoral, o caso mais representativo é a fake news de que votar serviria como prova de vida para o INSS, conteúdo que obteve amplo engajamento ao direcionar a desinformação especialmente à população idosa.
A análise dos conteúdos revela um padrão: as narrativas sobre a urna eletrônica recorrem a falsas explicações técnicas para sugerir falhas e possibilidades de manipulação. Segundo Helena Salvador, Coordenadora do Projeto Confia, a estratégia explora o fato de que o funcionamento completo do sistema eletrônico não é de conhecimento detalhado da maior parte da população.
“Elementos concretos da experiência de votação nas teclas da urna, as mensagens exibidas na tela, os procedimentos de confirmação do voto são sistematicamente utilizados para gerar estranhamento e alimentar dúvidas, justamente porque o contato com esse equipamento ocorre de forma pontual, concentrado no dia da eleição”, explica.
Há, nesse processo, uma lacuna estrutural entre o ato de votar e a compreensão de como o voto é registrado, protegido e transformado em resultado. “Diferentemente do voto em papel, cuja lógica tende a ser mais intuitiva, o sistema eletrônico envolve etapas tecnológicas menos visíveis ao eleitor, o que abre espaço para a circulação de interpretações equivocadas e conteúdos desinformativos.”
A pesquisa identificou ainda outros elementos recorrentes nessas narrativas: a incitação a um movimento coletivo de desconfiança e a representação da urna como uma tecnologia ao mesmo tempo obscura, manipulável e quase “mágica” retratada como frágil, ineficiente e supostamente utilizada apenas no Brasil.




