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A artista Elisa Riemer em seu ateliê
Viva Bem

DE PARANAVAÍ PARA O MUNDO

Elisa Riemer transforma o tarô em arte, resistência e novas narrativas do feminino

Criadora do primeiro tarô feminista brasileiro, artista prepara o lançamento da primeira edição latino-americana do lendário Tarô de Thoth

Entre colagens, símbolos, arquétipos e uma inquietação constante diante do mundo, a artista visual Elisa Riemer construiu uma trajetória que ultrapassou as fronteiras de Paranavaí para alcançar leitores, estudiosos e apreciadores do tarô em diversos países. Reconhecida por sua originalidade na criação de baralhos de tarô e oráculos, ela se tornou uma das principais referências brasileiras da área ao transformar cartas em instrumentos de reflexão, sensibilidade e questionamento social.

A artista Elisa Riemer em seu ateliê

A artista, que cresceu frequentando espaços culturais da cidade, prepara agora um dos projetos mais ambiciosos de sua carreira: o lançamento da primeira edição na América Latina do lendário Tarô de Thoth, originalmente concebido pelo ocultista britânico Aleister Crowley e ilustrado pela artista Frieda Harris. A obra será apresentada no segundo semestre e deve marcar um novo capítulo tanto na carreira de Elisa quanto na história editorial do tarô latino-americano.

Mas a chegada ao Thoth é resultado de uma caminhada iniciada anos atrás, quando ela percebeu a ausência de representatividade feminina nos baralhos que encontrava.

Um tarô criado para preencher ausências

Foi dessa percepção que nasceu o Nosotras Tarot, considerado o primeiro deck feminista brasileiro. O projeto surgiu em um momento em que praticamente não existiam referências nacionais voltadas à representação do feminino dentro da estrutura tradicional do tarô.

Elisa conta que, antes de iniciar qualquer trabalho, procura entender qual necessidade ainda não foi atendida. Para ela, criar um novo baralho só faz sentido quando existe algo a ser dito, uma ausência a ser preenchida ou uma nova perspectiva a ser apresentada.

“As pessoas procuram o tarô porque elas estão em falta de algo. Elas sentem falta de alguma coisa na vida delas. Alguma coisa não está certa, alguma coisa não está encaixada. Então, eu sempre me coloco nesse local do quebra-cabeça pra tentar entender como é a peça que vai se encaixar na sensação da pessoa e o que ela está precisando receber naquele momento. Acho que é isso. É a coisa que eu mais penso quando eu estou fazendo um trabalho”, explica.

Sua criação parte de uma reflexão profunda sobre o papel das imagens na vida das pessoas. Segundo a artista, cada baralho precisa funcionar como uma ferramenta capaz de dialogar com quem o utiliza, despertando sensações, reflexões e processos internos.

Elisa Riemer se prepara para o lançamento da primeira edição na América Latina do lendário Tarô de Thoth

O feminino como força de transformação

Embora seu trabalho seja frequentemente associado à delicadeza estética das colagens e composições visuais, Elisa enxerga sua produção artística por outro ângulo. Para ela, suas obras carregam principalmente fragilidades, medos, conflitos e questões emocionais profundas. São processos de exposição e elaboração de experiências pessoais que acabam encontrando ressonância em outras pessoas.

Ao mesmo tempo, a artista vê o feminino contemporâneo como uma potência transformadora, marcada pela resistência e pela capacidade de enfrentar estruturas históricas de opressão. “Eu enxergo o feminino contemporâneo como uma grande potência, sabe? Um poço de água inesgotável, de muita vontade de viver”, afirma.

Essa perspectiva aparece em diversas cartas criadas por ela, que frequentemente retratam mulheres em posições de protagonismo, autonomia e enfrentamento. Não se trata apenas de representatividade visual, mas de uma construção simbólica que busca ampliar as possibilidades de identificação e pertencimento.

Diversidade brasileira dentro das cartas

Outro aspecto marcante de sua obra é a preocupação em retratar a pluralidade cultural brasileira e latino-americana. Ao desenvolver seus baralhos, Elisa buscou romper com padrões visuais historicamente associados à representação dos arquétipos do tarô. Em vez de reproduzir modelos homogêneos e eurocentrados, ela passou a incluir pessoas com diferentes origens, tonalidades de pele, características físicas e referências culturais.

A proposta era aproximar as cartas das pessoas que realmente ocupam as ruas, os mercados, os bairros e as cidades brasileiras. Essa escolha também dialoga com sua estética característica, construída a partir de colagens de fotografias antigas, cartões-postais históricos, gravuras e elementos gráficos que remetem a outras épocas. A artista costuma definir sua linguagem visual como uma combinação entre memória, resgate histórico e imaginação contemporânea.

O desafio de recriar um clássico

Agora, toda essa experiência será colocada a serviço de um dos baralhos mais influentes da história. O Tarô de Thoth, criado por Aleister Crowley e ilustrado por Frieda Harris entre as décadas de 1930 e 1940, é considerado uma das obras mais complexas e estudadas dentro do universo do tarô.

Na edição latino-americana assinada por Elisa, as cartas ganham novas cores, texturas e referências visuais, mantendo a estrutura simbólica original, mas dialogando com a realidade cultural contemporânea.

O projeto exigiu anos de estudo. Segundo ela, cada tarô transforma profundamente quem o cria. Ao longo do processo, o artista é levado a revisitar arquétipos, percorrer jornadas simbólicas e desenvolver novas formas de percepção.

No caso do Thoth, essa transformação também ocorreu em nível técnico. “O meu trabalho foi completamente alterado, o meu traço foi alterado, eu aprendi mais, eu aprendi novas habilidades”, disse.

Paranavaí como origem e inspiração

Apesar do reconhecimento nacional e internacional, Elisa faz questão de manter viva a ligação com Paranavaí. Ela relembra com carinho os anos em que frequentou a Casa da Cultura, participou de atividades artísticas, assistiu a apresentações de teatro e viveu experiências que ajudaram a moldar sua formação criativa.

“Quando eu preciso voltar para um imaginário, eu sempre volto para o meu local de criança, eu sempre volto para a minha cidade”, acrescenta.

Elisa também destaca a quantidade de talentos que surgiram no município ao longo das últimas décadas, muitas vezes enfrentando limitações de estrutura e recursos, mas compensando essas dificuldades com criatividade e persistência.

Sua própria trajetória parece confirmar essa percepção. A artista que começou explorando colagens e experimentações visuais no interior do Paraná hoje figura entre os principais nomes brasileiros da criação de tarôs autorais, levando para o mundo um trabalho que une arte, simbolismo, memória e transformação social.

Fonte: Cibele Chacon - Da Redação

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