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Foto: Ivan Fuquini

UNESPAR DE PARANAVAÍ

Projeto resgata uso de plantas medicinais como estratégia complementar de cuidados com a saúde

Baseada em informações bibliográficas, pesquisas e experimentos, a iniciativa une ciência e conhecimento popular para chegar à comunidade e promover sustentabilidade

Versátil e saborosa, a ora-pro-nóbis complementa receitas culinárias simples. Pode ser utilizada, por exemplo, para temperar a carne moída refogada ou acrescentar cor e aroma ao molho branco para massas. A planta tem ganhado espaço na rotina dos brasileiros e se destaca pelo aspecto saudável. Rica em sais minerais, fortalece o sistema imunológico, melhora a memória e ajuda a manter o bom humor.

Implantação do horto de plantas medicinais foi possível graças ao incentivo do governo estadual
Foto: Ivan Fuquini

Não é à toa que estampa a cartilha “Resgate do uso tradicional de plantas medicinais pela população idosa de Paranavaí”. Organizado por estudantes do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), o trabalho está inserido em um projeto de pesquisa e extensão iniciado em novembro de 2024, que reúne aproximadamente 15 acadêmicos.

A coordenadora é a professora Franciele Zanardo Bohm, doutora em Ciências Biológicas. Ela conta que o projeto surgiu dentro de uma disciplina optativa do curso. “A princípio fiquei com dúvida. ‘Será que os alunos, por serem mais jovens, teriam interesse em plantas medicinais?’ Para minha surpresa, sim, a sala encheu.” O resultado positivo motivou a inscrição em editais de incentivo à produção científica.

Professora Franciele Zanardo Bohm fala da importância da participação dos acadêmicos em projetos de pesquisa. Foto: Ivan Fuquini

Deu certo. “Plantas medicinais: conhecer para promover a saúde e a sustentabilidade” está inserido no Programa de Apoio à Educação Tutorial Pesquisa-Ensino-Extensão (Pró-PET), da Fundação Araucária em parceria com a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Seti).

Os recursos financeiros repassados ao projeto possibilitaram adquirir computadores, organizar o horto de plantas medicinais e comprar reagentes químicos, além de garantir o pagamento de bolsas de estudos.

Pesquisa

As análises laboratoriais partem do interesse dos acadêmicos e levam em consideração um levantamento feito dentro do projeto com 20 profissionais de educação, 20 profissionais de saúde e 100 pessoas da comunidade, escolhidas aleatoriamente. As entrevistas revelaram quais são as plantas medicinais mais comumente utilizadas em Paranavaí.

Entre os destaques está o alecrim, que tem ação antioxidante e anti-inflamatória, auxiliar no trato digestivo, combate bactérias e combate o cansaço mental.

A recorrência da planta nas declarações dos paranavaienses motivou uma pesquisa sobre a melhor forma de preparo do chá: é melhor ferver a planta com a água ou fazer a infusão após a fervura?

Os estudos em andamento se baseiam na comparação do teor de fenólicos, que são os compostos antioxidantes do alecrim, nos dois métodos – fervura e infusão. O procedimento é o mesmo para outras plantas, caso da hortelã e do hibisco.

Extensão

As pesquisas sustentam uma série de atividades promovidas pelos acadêmicos junto à comunidade. Assim é com as informações sobre as plantas medicinais, condensadas em oficinais e palestras ministradas para os usuários dos sistemas públicos de saúde e assistência social.

A professora Franciele Zanardo Bohm afirma que o contato dos acadêmicos com a população é essencial. “Eles estão ficando experts em adaptar a linguagem [de acordo com o público atendido]. A gente vai treinando muito isso.”

Quando estão diante de estudantes do ensino médio, por exemplo, promovem uma gincana com perguntas e respostas. O jogo, no estilo “quem sou eu?”, consiste em apresentar propriedades medicinais para que sejam associadas às imagens. “Temos uma plaquinha com 12 plantas, ganha quem acertar o maior número”, resume a professora.

Cartilha

Se a intenção é disseminar conhecimento, a cartilha de receitas mencionada no início desta reportagem cumpre esse papel de maneira efetiva. O material foi organizado por Micaela do Carmo Santos, Bianca Silva de Souza e Gabriela Campos de Melo Cruz, sob a orientação da professora Franciele Zanardo Bohm.

Tudo começou com uma série de entrevistas feitas com idosos de Paranavaí e de outros municípios da região Noroeste, que indicaram quais plantas medicinais mais utilizavam e de que maneira.

A lista reúne 22 opções de ervas e frutos, com explicações sobre as características, as propriedades medicinais e as formas de preparo.

No espaço dedicado à ora-pro-nóbis, citada anteriormente, constam o nome científico (Pereskia aculeata) e a seguinte descrição: “É um arbusto espinhoso, com ramos longos que se propagam facilmente, tem um comportamento de trepadeira, folhas simples de coloração verde, apresenta flores brancas, presença de frutos redondos e amarelos que contêm espinhos, possui sementes pretas, a planta atinge cerca de quatro metros de altura”.

A receita é simples. Leve ao fogo o equivalente a uma xícara de água, adicione de cinco a sete folhas secas de ora-pro-nóbis bem lavadas e deixe ferver por 10 minutos. Depois é só coar e beber.

A acadêmica Micaela do Carmo Santos, do quarto ano, detalha o processo de criação da cartilha. Primeiro a equipe ouviu 56 pessoas acima de 60 anos de idade atendidas em instituições assistenciais e de convivência e dentro da própria Unespar, no projeto de extensão Universidade Aberta à Pessoa Idosa (Unapi).

Estudante Micaela do Carmo Santos é uma das organizadoras da cartilha com receitas caseiras de plantas medicinais
Foto: Ivan Fuquini

Depois de pesquisar comparar e comprovar, as organizadoras elaboraram o material gráfico com 20 páginas, que, além das receitas simples com as plantas medicinais, incluem dicas eficientes para diferentes problemas de saúde.

É possível descobrir um aliado importante para combater tosse e resfriado: o xarope feito a partir de uma cebola roxa, um dente de alho e duas colheres de mel. Basta bater os ingredientes no liquidificador, guardar a mistura em um vidro limpo e consumir o equivalente a uma colher pela manhã.

A distribuição da cartilha para a comunidade é sempre acompanhada de orientações, seja nos ambientes fora do campus universitário, seja durante as visitas aos laboratórios de Ciências Biológicas.

Nesse sentido, a conversa com crianças e adolescentes tem papel essencial. “Eles não querem mais saber de plantas medicinais”, constata Micaela do Carmo Santos. “Às vezes, a gente está com tosse, e um chazinho de guaco resolveria, mas a gente toma remédio [sintético], que degrada o corpo. Então, a gente tenta conscientizar essa nova geração sobre a importância das plantas medicinais.”

Ela faz questão de frisar que os preparos naturais não substituem as medicações prescritas por médicos. São complementares. O alerta, inclusive, está em uma das páginas da cartilha: “Busque sempre a orientação de um profissional da saúde, pois este material não substitui a consulta com um especialista”.

Ensino

A professora Franciele Zanardo Bohm fala sobre outro aspecto fundamental para o andamento do projeto “Plantas medicinais: conhecer para promover a saúde e a sustentabilidade”, o ensino.

Os acadêmicos aprendem o conteúdo nas salas de aula, nos laboratórios, durante as discussões sobre a disciplina e até mesmo nos ambientes onde desenvolvem ações com a comunidade.

Acadêmico Rafael dos Santos Costa destaca a eficiência dos produtos naturais como alternativa para manter a boa saúde
Foto: Ivan Fuquini

“Tivemos alunas que fizeram um trabalho em uma escola em Querência do Norte [município distante aproximadamente 130 quilômetros de Paranavaí]. Elas foram, levaram conhecimento, falaram sobre nutrição e plantas. Terminaram montando um jardim medicinal com as crianças da escola”, orgulha-se a professora.

Dentro dessa perspectiva, ensino e extensão se encontram para garantir que as informações se propaguem de forma correta e alcancem o maior número de pessoas possível.

Para o acadêmico Rafael dos Santos Costa, do segundo ano, há muitas desinformações a respeito do uso de plantas medicinais. “As pessoas não sabem como são eficientes. Nosso trabalho, dentro da universidade, pode auxiliar a comunidade.”

Iniciação científica

A inserção dos acadêmicos em projetos científicos é classificada pela professora Franciele Zanardo Bohm como fundamental para a formação profissional, porque exige leitura e pesquisa de produções que vão além do que é ensinado em sala de aula.

“A sala de aula é importante, mas quando você vai para um projeto científico, você explora um mundo muito maior de leitura, [conhece] o que está sendo feito em outras instituições, seja do Brasil, às vezes até no mundo, e você tenta trazer alguma coisa para sua formação dentro daquele universo.”

Ela complementa: “A pesquisa exige esse aprofundamento, que eu acho que, academicamente, é muito importante para formar um aluno em qualquer área”.

Ministério da Saúde

A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), instituída pelo Ministério da Saúde (MS), constitui parte essencial das ações públicas voltadas à saúde, ao meio ambiente e ao desenvolvimento econômico e social essenciais para promover melhorias na qualidade de vida da população brasileira.

O objetivo é garantir que a população brasileira tenha acesso seguro e faça uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade e o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional.

Entre as propostas do MS está o desenvolvimento de instrumentos de fomento à pesquisa, com desenvolvimento de tecnologias e inovações em plantas medicinais e fitoterápicos, o que vai ao encontro da atuação da Unespar de Paranavaí.

Fonte: REINALDO SILVA - Da Redação

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