Um túnel atravessa o caminho que leva à sustentabilidade energética. No fim desse túnel brilha uma luz que vem de cima. O sol. A radiação eletromagnética do astro-rei se transforma em fonte alternativa para a geração de eletricidade e já abastece mais de 500 mil unidades consumidoras no Paraná.
A captação é feita por painéis fotovoltaicos, uma junção ordenada de componentes semicondutores que absorvem a luz solar e se energizam para criar a corrente elétrica. A fabricação das placas requer precisão, possível graças à digitalização do processo industrial.
Essa é a aposta da Balfar Solar, instalada em Paranavaí, na região Noroeste do Estado. A história da empresa é marcada por mudanças de percurso, necessárias para acompanhar os avanços tecnológicos.
Por mais de 20 anos, o grupo investiu na fabricação de móveis, mas percebeu que uma oportunidade se desenhava. Entre 2013 e 2014, o diretor-presidente, Antonio Paula de Souza da Bárbara, hoje com 92 anos de idade, idealizou o projeto que levaria o nome da Balfar para além dos limites do município. Estudou, avaliou o mercado, prospectou negócios e firmou parcerias comerciais.
Em 2019, deu o passo definitivo para o lançamento da nova planta industrial. A partir de então, Solar. A princípio, a linha de produção era basicamente manual, o que elevava os custos e reduzia a competitividade, mas Bárbara persistiu e tomou novo fôlego ao decidir, em 2022, automatizar a fábrica.
Buscou equipamentos de tecnologia alemã e implementou o novo sistema, que passou a responder por 85% do processo. De acordo com o diretor comercial da Balfar Solar, Fredman Luiz Favaro, agora, em vez de quase 40 pessoas, o quadro de colaboradores conta com menos de 20, com produtividade adicional de 30% na comparação com o formato anterior. “É menos retrabalho e mais eficiência no fluxo operacional.”

Uma placa com 144 células fotovoltaicas leva dois minutos para ficar pronta, e a capacidade instalada é de 70 mil painéis por mês. O estoque atual gira em torno de 70 mil a 80 mil unidades. Segundo o diretor-presidente, a indústria atende a clientes de diferentes regiões brasileiras, especialmente órgãos públicos e grandes empresas.
Automação: ferramenta de eficiência produtiva
Gerente sênior de Tecnologia e Inovação do Senai Paraná, Fabiano Scheer Hainosz é taxativo: “Empresas que iniciam a sua jornada de automação percebem rapidamente ganhos de produtividade, qualidade e competitividade. Por isso, cada vez mais indústrias estão entendendo que automação deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade para competir em um mercado global”.
O uso de tecnologias, diz Hainosz, permite produzir mais com os mesmos recursos, reduzir desperdícios, aumentar a qualidade dos produtos e tornar os processos mais acessíveis. Ferramentas como automação, inteligência artificial, sensoriamento e análise de dados ajudam na tomada de decisões de forma rápida e precisa. “Na prática, empresas que investem em inovação e transformação digital tendem a apresentar ganhos de produtividade, melhorarem suas margens, terem maior capacidade de competir em mercados cada vez mais exigentes.”

Para o gerente de Desenvolvimento Industrial e Social da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Marcelo Percicotti, modernizar significa permanecer relevante em um cenário cada vez mais competitivo, mantendo escala e qualidade na produção. “A redução de custos é percebida não apenas pela diminuição do custo unitário dos produtos, decorrente do ganho de escala e eficiência, mas também por melhorias relacionadas à eficiência hídrica e energética.”
Energia sustentável: desafios e oportunidades
Eficiência produtiva e sustentabilidade ambiental caminham lado a lado e precisam fazer parte do planejamento estratégico de toda e qualquer empresa. É o que defende o coordenador do Conselho Temático de Energia da Fiep, Rui Benetti, prevendo que “nos próximos anos, a tendência é que a indústria amplie o uso de fontes limpas e renováveis para tornar suas operações mais sustentáveis e alinhadas às exigências de mercado e da sociedade”.
Mas ainda há obstáculos no percurso. Pericotti aponta a dificuldade em obter financiamento com taxas de juros mais adequadas para a modernização tecnológica, “principalmente quando se trata da importação de máquinas e tecnologias”.
O empresário Antonio Paula de Souza da Bárbara corrobora esse argumento. Ele lamenta a falta de incentivo do poder público e relata a dificuldade de competir com a produção chinesa de placas solares. “Em que pese haver um empenho para taxar a entrada de importados, quando você taxa o painel, taxa toda a cadeia, então a matéria-prima também vem taxada.” De maneira geral, o produto final brasileiro chega a custar até 25% mais.

Os contatos constantes com o Ministério de Minas e Energias comprovam as tentativas de promover mudanças e valorizar a indústria nacional para abastecer o mercado interno. Esses esforços se somam à busca insistente por menor dependência da China. O diretor comercial da Balfar Solar cita os Estados Unidos e a América Latina como potenciais compradores. “Há possibilidade de ampliar o nosso leque de vendas.”
Painéis solares: cuidados e vantagens
Superintendente comercial da Copel, Breno Castro destaca que o planejamento é essencial para garantir o funcionamento correto do sistema de captação e distribuição de energia. O primeiro passo para instalar placas solares é contratar um profissional capacitado, responsável por elaborar o projeto adequado às necessidades e à estrutura da empresa.
Quando a injeção de energia supera a projeção inicial cadastrada junto à companhia, a sobrecarga pode gerar instabilidade e comprometer o fornecimento de toda a região. O desequilíbrio na rede provoca oscilações e quedas, refletindo também, de forma negativa, nos processos de produção.

Castro garante que a Copel está adaptada para suprir a demanda paranaense e incentiva o uso de placas solares como fonte de energia renovável vantajosa. O crescimento dos últimos anos revela o interesse em investir em sustentabilidade financeira e ambiental: em dezembro de 2020, o Paraná tinha 55.202 beneficiários; em dezembro de 2025, o número saltou para 528.496. Os dados são Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A grande vantagem para os consumidores está na redução dos custos. O superintendente comercial da Copel calcula que o valor da conta mensal pode cair até 20%. “Desde que seja usada da forma correta, a energia solar é muito positiva.”
No caso das indústrias, o coordenador do Conselho Temático de Energia da Fiep avalia: “O retorno dos investimentos em novas modalidades de energia tem se tornado cada vez mais atrativo e o prazo de retorno vem diminuindo”.
Nesse sentido, atravessar o túnel e chegar à luz solar no fim do caminho se mostra uma opção mais do que viável, necessária. Por isso, diz Rui Benetti, a Fiep atua de forma permanente junto aos governos federal, estadual e municipal “para garantir segurança jurídica ao setor e defender políticas públicas que possibilitem incentivos e benefícios fiscais, especialmente para segmentos mais vulneráveis”.





