“Eu não sou político, nem politiqueiro”. Quem viveu a fase adulta em Paranavaí na segunda metade da década de 1990 provavelmente se lembra dessa afirmação. Era uma das frases marcantes do candidato Deusdete Ferreira de Cerqueira na disputa pela prefeitura de Paranavaí em 1996, veiculada em horário eleitoral gratuito de rádio e TV. Ele (Deusdete) se elegeria para o cargo quatro anos depois, no ano 2000, numa espécie de “recall” do pleito anterior, governando a cidade de 2001 a 2004. A disputa com Teruo Kato terminou um a um, como a história nos mostra. Um a um sem perdedores, registra-se, pois cada liderança teve a chance de desenvolver o seu trabalho e deixar o legado para as gerações seguintes.
Na campanha de estreia de Deusdete, uma característica dele não foi medida inicialmente: o fascínio que despertava nas crianças. Ao andar pelas ruas ou durante visitas às escolas, Deusdete era envolvido pelas crianças que corriam em sua direção para tocá-lo. O homem sério, e já com cara de avô cuidador, gostava desse contato e esboçava leves sorrisos, embora mantivesse o jeitão que o consagrou. Não por acaso, ele se destacou na Educação e pedia empenho da sua equipe para a área. E atentem: Deusdete não frequentou a escola regular e, talvez por isso, se via nas crianças que o cortejavam.
A camisa de manga longa sempre abotoada nos punhos era outra característica dessa figura pública incomum. Deusdete chegava cedo ao trabalho. Ganhou fama de fazedor na Sociedade Rural. Quem quisesse falar com ele de manhã, podia ir ao parque, onde o então presidente inspecionava as obras nas primeiras horas. Essa característica Deusdete levou para a gestão pública. Gostava de acompanhar o andamento dos trabalhos.
Outra característica de Deusdete era o gosto pelas andanças nas manhãs de sábado. Visitava lanchonetes, restaurantes e se alegrava com uma grande roda de prosa. Outra lembrança para sempre é a famosa galinhada do Fonte Luminosa, uma reunião em que todos que chegavam eram bem-vindos para o almoço (frango ao molho, arroz, feijão, porções de peixe e pirão). Sem contar a mesa farta na Estância Reno, lar do Deusdete e da Dona Raquel, sem tramelas.
Deusdete ouvia bastante, mas quem conviveu há de lembrar que ele gostava de boas histórias e usava o humor irônico como poucos para as situações inusitadas do cotidiano. Embora não fosse um político tradicional, transitava no jogo da política e fazia algumas graças a seu modo. Falava muito sério quando o assunto era o respeito aos recursos públicos.
A perda do baiano paranavaiense simples neste domingo (21), aos 96 anos, tem larga repercussão do ponto de vista histórico. Deusdete, como sugere o nosso título, foi um dos últimos (talvez o último) grande líder da velha guarda a administrar a cidade. Mais ainda: a morte dele marca também o fim de parte representativa da trajetória dos grandes pioneiros. Deusdete viveu de tudo: a vida de peão nordestino no Sul, a dura labuta do comércio, as incertezas da roça. Construiu patrimônio (material) e capital político (bons relacionamentos). Deixa o exemplo de trabalho duro de desbravador das matas, algo que as novas gerações poderão conferir apenas nos livros de história.
São outros tempos.
Uma mensagem final dedicada à família: que o exemplo de bem viver de Deusdete Ferreira de Cerqueira seja a inspiração para a “cidade que não pode mais parar”.
*Adão Ribeiro é jornalista e historiador




