Enquanto o debate político brasileiro permanece preso à disputa entre direita e esquerda, as principais potências mundiais priorizam estratégias, resultados e interesses nacionais.
O Brasil transformou a política em uma disputa permanente de identidade. De um lado, a direita; do outro, a esquerda. O debate público gira em torno de rótulos, enquanto as maiores potências do mundo operam a partir de uma pergunta mais simples: o que funciona.
No Brasil, direita e esquerda deixaram de funcionar principalmente como correntes de pensamento para se tornarem identidades políticas. Servem para organizar grupos, criar pertencimento e manter antagonismos. Na prática, muitas decisões políticas continuam sendo orientadas por interesses eleitorais e preservação de poder, ainda que apresentadas como escolhas ideológicas.
Nesse contexto, a ideologia passa a funcionar como instrumento retórico. Ela justifica alianças contraditórias, relativiza erros, protege lideranças e mobiliza apoiadores. O discurso se adapta às circunstâncias, os princípios se flexibilizam e o objetivo permanece o mesmo: manter influência e poder.
A consequência é a ilusão de um grande debate nacional. Enquanto se discute quem representa o “bem” ou o “mal”, problemas estruturais permanecem: infraestrutura deficiente, baixa produtividade, dificuldades educacionais, reduzida capacidade de inovação e um Estado que custa muito e entrega pouco.
Estados Unidos e China, apesar de suas diferenças políticas, compartilham uma característica relevante: o pragmatismo. Os Estados Unidos, associados ao liberalismo econômico, utilizam o Estado para proteger cadeias produtivas, subsidiar setores estratégicos e defender interesses nacionais. A China, oficialmente socialista, emprega mecanismos de mercado, estimula competição e avalia políticas públicas pelos resultados obtidos. Em ambos os casos, a estratégia prevalece sobre a pureza ideológica.
Pragmatismo não significa ausência de valores. Significa avaliar políticas por seus efeitos concretos e reconhecer que soluções eficazes podem surgir de diferentes tradições políticas.
No Brasil, ocorre frequentemente o contrário. Propostas são avaliadas menos pelos seus resultados e mais pela identidade política de quem as apresenta. Medidas potencialmente eficazes são rejeitadas por pertencerem ao campo adversário. A política deixa de ser um exercício de solução de problemas para se tornar um exercício de lealdade.
O Brasil não precisa decidir se é de direita ou de esquerda. Precisa decidir se deseja continuar defendendo narrativas ou começar a exigir resultados. Enquanto insistimos em discutir rótulos, outras nações continuam discutindo estratégia. E, nesse intervalo, o atraso deixa de ser apenas político para se tornar estrutural.




