Era uma igreja antiga, de reboco em estuque e trincas, fincada no meio de uma praça também antiga. As suas portas abertas eram um convite. Ela não estava cheia, mas havia pessoas ajoelhadas em oração e em pé, a contemplá-la.
Poucos passos adiante, parei para o vislumbre, e estaquei. Jamais imaginaria que fosse tão bonita quando olhada de dentro. Eram os vitrais que lhe davam vida e me fizeram bem olhar. Belos, compostos de cacos azuis, amarelos, vermelhos, verdes a receberem a luz da meia-tarde.
Aqueles pedaços de vidros diziam poesia. Compunham poemas de cacos.
Uniformes na sua disformidade. Coloridos, arranjados, tão bem-organizados que transmitiam ordem e serenidade. Pois o conjunto imantou meu olhar e nessa abstração, percebi neles algo de mágico. Eram pedaços juntados que compunham em cada vão, uma cena e, em cada cena, um poema. De vida. Sobrevivência. Resistência. Crucificação e de imortalidade.
Divino. Latente. Contemplativo.
Retratavam não apenas o nascimento de um Menino. Era Jesus, acolhido num estábulo entre burros e vacas. Esse vitral recitava a vida. Depois, nos outros, a peregrinação, a fuga santa, cenas bíblicas conhecidas. Para, no fim da parede em um canto penumbrado, a crucificação e, ao lado, o ressuscitar!
A passagem vagarosa e silenciosa dos meus olhos, peça a peça, revelou detalhes conhecidos e, nessa varrição a procurar defeitos que o vidraceiro pudesse ter deixado ao ligar pedaços, vi apenas perfeição. Sintonia e harmonia a comporem formas e cores. Os encaixes e soldas, por si, escreveram a história.
Ao contá-la, compuseram poemas. Estáticos em puro assombro, meus olhos, ao lerem imersos sob uma espécie de fascínio, puseram-se a orar. Por mim, com o corpo e alma constritos.
Os caquinhos comprovaram que a inspiração criara a beleza e, postos esses sob o a projeção do sol ela se oferecia, ao tempo que me conduzia à jovialidade do casal retratado. Também ao abrigo do recém-nascido, ao primeiro choro, ao socorro da mãe, ao amparo do Filho. Vi-me ali embevecido. Como o filho do Filho.
E, em meio a pessoas com terços, me ajoelhei. Não apenas para rezar, mas para gozar da paz que o todo me abraçava. O tempo, a quem às vezes não damos importância traça, na passagem, detalhes de grandeza. Os poemas craquelados compunham a fé, e ela se oferece a olhos que a queiram ler, como os meus.
A leitura parcimoniosa das paredes, as lamparinas em tremor sob o vento morno e o silêncio sagrado do Sacrário, complementaram minha visita ao antigo Templo. Para me colocarem a pensar que talvez nossas almas se assemelhem a um vitral.
Vitral ambulante que sai à procura de luz, e consiga como aqueles, irradiar a beleza.



