Há dualidades – conhecidas como opostos complementares – ferramentas interessantes que às vezes deixamos de contemplar. Um exemplo é a contemplação do dentro e o do fora, do claro e do escuro, do dia e da noite, analisando suas particularidades. São opostos, mas se ligam e se completam. Dão-nos condição para criarmos harmonia a despeito de sermos invadidos por duelos internos a nos porem em xeque em meio a situações difíceis.
Tomemos por exemplo o dentro e o fora e imaginemos o mundo sem janelas que nos permitem de fora observar o dentro, ao tempo que por igual, de dentro nos maravilharmos com o fora. Isoladamente, nem o dentro nem o fora produzem o encantamento; a beleza nasce da relação entre ambos.
Parece coisa de doido, mas não é. Nem de quem tem muito tempo pensar coisas assim. E perguntamos: o que seria do vitral de uma igreja, por exemplo, se não houvesse essa dualidade entre o fora e o dentro? Visto de fora, o vitral serve apenas como fechamento de um vão na parede; mas, olhado de dentro, ele se transforma em maravilha para olhos e espírito, rejuvenesce a alma, eis que um artista – que tem divindade nas mãos – conseguiu transformar cacos coloridos em arte, e dar vida à cacaria que nem aos sucateiros interessaria. Mais: põem em nossos olhos vida, beleza e esplendor.
Basta visitar um templo – qualquer deles – cuja construção tenha sido ousada com a preocupação do belo e singular vitral. Nesse mesmo sentido, pensando na janela que possibilita o dentro e o fora, o que seria do mexeriqueiro se ela não existisse? Onde iria se debruçar e se imiscuir na vida alheia? O dentro e o fora assim, se completam. Um pelo infinito à disposição, o vento livre a levantar folhas, o pássaro solto simbolizando a liberdade; o outro, pela introspecção, segurança e até pela saciedade do desejo de se estar só, já que a solidão desejada vale tanto quanto a felicidade.
Outro exemplo que se pode extrair desses duetos é o contraste entre o claro e o escuro. O segundo inspira descanso, paz, sossego, enternecimento, demora, mas é tão frágil que diante da mísera faísca, se desfaz no primeiro lampejo, já que o claro é vida, movimento, agito e sugere tarefas a realizar.
Todavia, o que seria do claro se não houvesse o adversário escuro? E o vice-versa? O que seria do simples se não houvesse o complexo? O que seria do amor se não houvesse a paixão a lhe incendiar sentimentos? E da paixão, se não se transformasse em amor, como faz a metamorfose da pupa em borboleta?
Por ser a paixão uma chama, aparentemente ao tempo que queima com sentimentos, a si própria se consome. Seu fogo, sem se dar conta do que faz, queima a lenha que a alimenta, e acaba por morrer em cinzas…
Mas não, a paixão, ao se consumir, até pode amainar a própria quentura, mas deixa, no mais das vezes, o calor mais duradouro do amor.
E é esse que interessa.




