O movimento nos leva aos machucados. Um risco na pele, uma espinhada. A sensibilidade avisa. Nos grandes ferimentos a dor é intensa. Pior quando há fraturas maiores. Quem se quebrou, sabe. Sujeitamo-nos a elas desde as unhas, dedos, mãos, pés, pernas e até o quadril, que se transformam em infortúnio.
Por serem fraturas do corpo físico, se regeneram. A unha volta a crescer, os ossos se colam e o acontecimento que nos deu o contratempo ganha o caminho do esquecimento. Quem não se machucou ao aprender se equilibrar na bicicleta?
Há, porém, uma dor que dificilmente se vai. E fica para sempre. Por mais que nos esforcemos a esquecê-la, estará conosco. É a dor da alma. É tão sentida que o coração até pode estar cheio de palavras, mas as mãos, trêmulas mãos, não conseguirão passá-las ao papel. Porque, quando a alma dói, não há poesia.
Nossa alma se quebra como louça. Forma-se em cacos. E não se deve deixá-la espalhada em meio a cascas de batatas e peles de cebola no piso da cozinha. Recolher esses pedaços é um dos trabalhos mais silenciosos e doloridos que sobram depois de uma grande decepção, a razão da sua quebra. Ela sangra e nos faz urrar, porque o mundo se transforma em aperto descomunal de peito.
Não importa a origem da dor: amorosa, de saúde, do trabalho ou qualquer. Ao se quebrar a alma, quebram-se as certezas. Desbotam-se nossas vontades. Paralisam-se as ações. Um turvamento toma os olhos, desce pelos braços e ganha o corpo. Invade-nos como áspera capa de tristeza. É a dor silenciosa da promessa quebrada, da ilusão desfeita. Quem passou, sabe. O chão, a base, o rijo dos sapatos desaparece. O peito, antes fuzarca e entusiasmo, esvazia-se a se sentir ferido.
O que fazer? Viver essa dor será necessário. A vida segue. Reconstituir-se é a obrigação. E, talvez esse, seja esse o momento mais árduo a se enfrentar. O mais dolorido, eis que teremos que juntar os fragmentos pontiagudos em um reavivar de expectativa: a desilusão.
Mas a ferida exige tempo e cuidado, eis que que juntar cacos não significa reconstruir a mesma moldura quebrada. Não. Essa não se remenda e deverá ser dispersada. Virou lixo, como as cascas e peles.
Com isso, haverá um afago ao formato de cada cicatriz e a receita está em abraçar a própria dor e, com paciência e gentileza consigo mesmo, colar os pedaços.
Reorganizar-se como quem segura a pequena vassoura e, silenciosamente e com cuidado, separa caco a caco. Para transformar em aprendizado essa operação dolorida.
Mesmo que demore, a alma dará sinais de recomposição, mas não voltará a ser exatamente a de antes. Ela descobrirá que certas emendas também sustentam a beleza da vida e permitem novos recomeços.



