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EDUCAÇÃO

Superdotação ainda passa despercebida nas escolas brasileiras

Celebrado no dia 10 de agosto, o Dia Mundial da Superdotação busca ampliar o debate sobre uma condição que ainda é cercada de estereótipos e frequentemente passa despercebida dentro e fora das salas de aula. Embora o senso comum associe a superdotação apenas a alunos com notas altas ou desempenho excepcional em todas as disciplinas, as altas habilidades podem se manifestar de diferentes formas e exigem um olhar atento de famílias, educadores e profissionais de saúde.

No Brasil, o desafio da identificação ainda é expressivo. Dados do Censo Escolar 2024, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apontam que 43.950 estudantes foram identificados com altas habilidades ou superdotação na educação básica. O número indica que muitos casos ainda podem permanecer sem reconhecimento, especialmente entre meninas, estudantes da rede pública e crianças que apresentam outras condições do neurodesenvolvimento, como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtorno do espectro autista (TEA).

A falta de identificação precoce vai além do impacto no desempenho escolar. Quando as necessidades desses estudantes não são compreendidas, eles podem enfrentar dificuldades emocionais, sociais e comportamentais que comprometem seu desenvolvimento e qualidade de vida.

“Ainda existe a ideia de que a superdotação é sinônimo de notas altas e facilidade em tudo. Na prática, encontramos crianças extremamente inteligentes que sofrem justamente porque suas características não são reconhecidas. Quando isso acontece, elas podem desenvolver frustração, ansiedade, baixa autoestima e desmotivação em relação à escola”, explica Fabricia Signorelli, Psiquiatra do Ambulatório de TDAH no Adulto da Unifesp e Mestre em transtornos do Neurodesenvolvimento.

Muito além do alto desempenho escolar

Ter altas habilidades ou superdotação não significa apresentar facilidade em todas as disciplinas ou manter um desempenho acadêmico impecável. Em muitos casos, a superdotação se manifesta por meio de intensa curiosidade, criatividade, pensamento abstrato, aprendizagem acelerada em áreas específicas e grande capacidade para resolver problemas complexos.

Também é comum que essas crianças demonstrem interesses profundos por determinados assuntos, façam questionamentos incomuns para a idade e estabeleçam conexões entre diferentes temas com rapidez. Ao mesmo tempo, podem apresentar dificuldades em atividades que não despertam seu interesse ou que não oferecem desafios compatíveis com seu potencial.

Esse perfil, muitas vezes, faz com que sejam interpretadas como desatentas, desmotivadas ou até indisciplinadas, quando, na realidade, suas necessidades educacionais e emocionais ainda não foram identificadas e atendidas adequadamente. “Nem sempre uma criança com altas habilidades será aquela que apresenta as melhores notas ou o comportamento esperado pela escola. Muitas vezes, o desinteresse por determinadas atividades, a inquietação ou os questionamentos constantes são interpretados de forma equivocada, quando podem estar relacionados à falta de estímulos adequados e ao fato de aquele aluno não se sentir desafiado”, explica a Psiquiatra do Ambulatório de TDAH no Adulto da Unifesp.

Quem ainda passa despercebido

A identificação da superdotação ainda enfrenta obstáculos importantes. Meninas costumam desenvolver estratégias para mascarar suas habilidades e se adaptar socialmente, enquanto estudantes da rede pública nem sempre têm acesso a processos de avaliação específicos.

Outro desafio é a chamada dupla excepcionalidade, situação em que a superdotação ocorre juntamente com condições como TDAH ou TEA. Nesses casos, as dificuldades associadas ao transtorno podem chamar mais atenção do que as altas habilidades, atrasando ou até impedindo o reconhecimento do potencial daquela criança ou adolescente.

“Identificar a superdotação não significa criar privilégios, mas garantir que cada criança tenha acesso aos estímulos de que realmente precisa. Quando a escola e a família compreendem esse perfil, é possível oferecer desafios compatíveis com seu potencial, favorecer o desenvolvimento socioemocional e reduzir o risco de sofrimento psicológico decorrente da sensação de não pertencimento ou da falta de reconhecimento”, destaca a psiquiatra Fabricia Signorelli.

Embora o número de estudantes identificados venha crescendo nos últimos anos, especialistas ressaltam que ampliar o conhecimento sobre as altas habilidades ainda é um passo fundamental para reduzir a identificação tardia e garantir que crianças e adolescentes tenham acesso ao suporte educacional e ao acompanhamento adequado para desenvolver plenamente seu potencial.

Fonte: Assessoria

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