A geração que cresceu com o celular na mão e acesso a informação construiu uma relação diferente com o dinheiro. Indicador de Inadimplência da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, divulgados nesta sexta-feira (14), mostram que a inadimplência aumentou entre as pessoas de 30 e 39 anos, somando 18,19 milhões de endividados nessa faixa, mais da metade (53,68%) da população dessa idade está negativada. Enquanto isso, na geração Z esse número é de 6 milhões, ou 26% dos jovens dentro dessa idade.
A mudança na composição dos consumidores negativados sugere que os jovens não são os responsáveis pelo avanço do problema e abre uma discussão sobre como a nova geração está lidando com consumo, crédito e planejamento financeiro. Para Malu Lira, autora de mais de 20 livros voltados para educação financeira desde a infância, o comportamento pode estar relacionado a uma mudança na forma como crianças e adolescentes chegam à vida adulta. “Essa é uma geração que teve acesso muito cedo a informações sobre dinheiro. Eles acompanham conteúdos, comparam preços, conhecem ferramentas digitais e estão mais expostos a conversas sobre planejamento. Isso não significa que sejam imunes às dívidas, mas pode indicar uma relação mais consciente com o dinheiro”, afirma.
Outro aspecto é a mudança na relação dos jovens com o consumo. Para Malu, o acesso às redes sociais e ao comércio digital pode produzir efeitos contraditórios, estimulando o consumo por impulso, mas também tornando mais fácil pesquisar, comparar e questionar uma compra. “Não podemos dizer que uma geração é responsável e outra não é. Existem fatores econômicos, sociais e culturais envolvidos. Mas os dados mostram uma mudança importante no comportamento dos jovens e nos dão uma oportunidade de entender o que eles estão fazendo diferente”, afirma Malu.
A queda da participação dos jovens na inadimplência também reforça a importância de ampliar a educação financeira antes da chegada à vida adulta. Com um sistema de educação financeira presente em mais de 200 escolas no país, Malu afirma que ensinar crianças e adolescentes a lidar com dinheiro não significa antecipar preocupações, mas oferecer ferramentas para que eles possam tomar decisões com mais autonomia.
O desafio, segundo a escritora, é transformar o interesse crescente dos jovens pelo tema em hábitos concretos. Planejar antes de comprar, compreender como funciona o crédito, estabelecer objetivos e aprender a diferenciar desejo de necessidade são comportamentos que podem começar ainda na infância. “Quando ensinamos uma criança a fazer escolhas, estabelecer prioridades e entender que nem toda vontade precisa virar uma compra, estamos preparando essa pessoa para muito mais do que administrar dinheiro. Estamos desenvolvendo autonomia”, conclui.



