Realizaria mais uma sequência de entrevistas com o objetivo de contratar um novo estagiário para a empresa. Dúvidas e mais dúvidas surgiam em sua cabeça na hora de escolher a melhor forma de selecionar alguém com um mínimo de caráter para trabalhar.
Sabia que, na verdade, as dinâmicas comumente utilizadas não demonstram quem realmente o candidato é. Uma ideia meio maluca lhe veio à cabeça. Decidiu que, depois de fazer aquele questionário clichê de sempre, sendo simpático nas perguntas e observador nas respostas, sem mais nem menos faria a proposta indecente de pedir para o candidato abrir a bolsa ou a mochila e mostrar tudo o que tem dentro. Assim, conseguiria obter um mínimo de sinceridade de cada um.
Quem não se sujeitasse a isso, ainda teria remotas chances de ser contratado.
Minutos antes de o primeiro candidato chegar, fumou um cigarro e sentiu-se feliz porque tinha certeza de que finalmente conseguiria êxito nas entrevistas de trabalho.
Primeira candidata. Mirela, 22 anos. Cursa o último ano do curso de Direito, matutino.
Nunca trabalhou na vida e foi muito sincera ao dizer que procurava estágio forçadamente pelo pai, que não aguentava mais as despesas com cartão de crédito.
Em sua bolsa, encontrou estojo de maquiagem, uma carteira gorda com cartões de tudo quanto é loja do shopping, absorventes, camisinhas, chave do carro, escova de cabelo e, incrivelmente, uma pedra pesada, que a moça alegou ser para sua defesa pessoal. Lembrou dos desenhos do Pica-pau nessa hora.
O segundo candidato, Carlos, 19. Vestia-se elegantemente bem e não andava nem com mochila e nem com bolsa, apenas com a maleta do notebook. Na entrevista, disse ler mais de oito jornais diariamente pela internet e que tem Blog, Fotolog, Giroflog e outros Logs mais. Já no terceiro ano de Jornalismo, seu sonho mesmo, confessou, é ser apresentador de programa televisivo. Quando pediu a opinião de Carlos sobre o descontentamento de um apresentador global que teve seu relógio Rolex roubado, ele o apoiou incondicionalmente, mas não conseguiu um argumento diferente dos que já haviam sido publicados pelos “formadores de opinião” dos jornalões da capital paulista.
Naquele dia, com quarenta minutos de atraso, chegou mais um candidato. Meio suado, roupas simples, porém limpas, cabelo sem corte e barbicha engraçada, Horácio, 20, ainda não ingressou na faculdade, mas faz cursinho e trabalha em “regime de escravidão” em um call center.
Chegou atrasado porque não conseguiu ser liberado tão facilmente do serviço.
Quando abriu sua mochila surrada e suja, ficou com as bochechas rosadas. Um caderno, cópias de músicas cifradas de um MPB distante, um livro recém-comprado no sebo (a etiqueta de R$ 5 não mente) e um pão com mortadela dentro de um saquinho marrom era o que recheava a mochila.
No outro dia, mais um monte de candidatos à vaga abriram suas mochilas para o entrevistador. Um deles, ao abrir o zíper, liberou centenas de borboletas douradas pelo escritório, exalando magia, cor e doçura. Outro, mostrou portfólio invejável com fotografias cheirando à Photoshop, de tão intocáveis que eram. Uma linda garota, sem calcinhas, preferiu abrir as pernas em vez de abrir a bolsa.
Mas, não tinha mais jeito. Ninguém tirava da cabeça do empregador que Horácio seria o rapaz certo para a vaga. Ele achou sincero demais o saquinho marrom contendo pão com mortadela.
*O conto “O sincero pão com mortadela” venceu o concurso Conte um Conto e Ganhe 500 Contos, da Revista Where Brasil, de Curitiba, no início do século 21.



