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Melissa Artioli é executiva, empreendedora e autora do livro Solte, Entregue, Confie (DVS Editora)

LIVRO

Nem tudo merece segunda chance

Recentemente, enquanto aguardava meu filho sair da terapia, vi um casal deixando uma sessão. Ele caminhava com segurança e ela vinha logo atrás, com os olhos cheios de lágrimas. Eu não conhecia aquela história, mas aquele olhar me atingiu porque, em outro tempo, também foi meu.

A cena me lembrou de algo que demorei a admitir: às vezes, o mais difícil não é tentar de novo, mas perceber quando uma nova chance já custou caro demais.

Há alguns anos, eu também estava em uma sala de terapia de casal tentando entender o que havia de errado com o meu casamento e, sobretudo, comigo. Ao meu lado, havia um marido seguro, equilibrado e convincente. Eu, aos poucos, ocupava o lugar da emocional, da difícil, daquela que precisava mudar para que a relação funcionasse.

Esse desgaste quase nunca chega de uma vez, pois primeiro vem o incômodo, depois as conversas, as promessas e os acordos. Quando nada muda, começamos a negociar com a própria percepção e a imaginar que talvez o problema esteja em nós. É assim que muita gente fica tempo demais onde já não deveria estar, ainda esperando que o esforço seja reconhecido.

Talvez por isso o mito de Narciso continue tão atual. Narciso se apaixona pela própria imagem e não consegue enxergar o que existe além dela. Caetano Veloso resumiu isso ao cantar que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Para mim, esse verso também fala de relações em que o outro só é aceito enquanto confirma uma imagem e permanece no papel que lhe foi imposto.

Durante muito tempo, no meu casamento, prevaleceu a narrativa de um homem admirável e de uma mulher que precisava se corrigir, se adaptar e se reconstruir. O que eu não entendia era que antes de salvar qualquer relação, eu precisava recuperar minha própria voz.

Crescemos ouvindo que quem ama não desiste, mas a questão não é negar recomeços, é reconhecer quando a insistência deixou de ser amor e passou a ser esforço unilateral. Relações podem ser reconstruídas, mas somente quando os dois se movem. Não existe reconstrução quando uma pessoa conversa, cede, procura ajuda e muda, enquanto a outra apenas assiste.

É aí que está a diferença entre persistir e insistir. Persistir faz sentido quando ambos ainda constroem juntos. Insistir é permanecer por medo, culpa ou adiamento, até que uma das partes comece a abandonar a si mesma para manter o vínculo de pé.

No meu caso, algo só mudou quando entendi que eu não conseguiria salvar sozinha um casamento sem cumplicidade e lealdade. Essa constatação doeu, mas também me devolveu a lucidez.

Se eu pudesse conversar com a mulher que fui, não diria apenas “vá embora”. Eu diria: pare de gastar toda a sua energia tentando entender o outro e observe o que está acontecendo com você. Você ainda reconhece a própria voz? Consegue dizer o que pensa sem medo? Quanto de si está sacrificando para manter essa história?

Se você já não sabe se permanece por amor, esperança ou medo do fim, talvez a pergunta não seja se essa relação merece outra chance, mas quantas chances você ainda pretende dar ao outro antes de dar uma a si mesma.

Deixo então o convite para que você solte o que não pode controlar, entregue o que já não depende de você e confie no caminho de volta. Reconhecer limites, deixar ir o que perdeu o sentido e entender que alguns finais não são fracassos, às vezes, é a única forma de voltar para si.

Fonte: Melissa Artioli

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