Recentemente, enquanto aguardava meu filho sair da terapia, vi um casal deixando uma sessão. Ele caminhava com segurança e ela vinha logo atrás, com os olhos cheios de lágrimas. Eu não conhecia aquela história, mas aquele olhar me atingiu porque, em outro tempo, também foi meu.
A cena me lembrou de algo que demorei a admitir: às vezes, o mais difícil não é tentar de novo, mas perceber quando uma nova chance já custou caro demais.
Há alguns anos, eu também estava em uma sala de terapia de casal tentando entender o que havia de errado com o meu casamento e, sobretudo, comigo. Ao meu lado, havia um marido seguro, equilibrado e convincente. Eu, aos poucos, ocupava o lugar da emocional, da difícil, daquela que precisava mudar para que a relação funcionasse.
Esse desgaste quase nunca chega de uma vez, pois primeiro vem o incômodo, depois as conversas, as promessas e os acordos. Quando nada muda, começamos a negociar com a própria percepção e a imaginar que talvez o problema esteja em nós. É assim que muita gente fica tempo demais onde já não deveria estar, ainda esperando que o esforço seja reconhecido.
Talvez por isso o mito de Narciso continue tão atual. Narciso se apaixona pela própria imagem e não consegue enxergar o que existe além dela. Caetano Veloso resumiu isso ao cantar que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Para mim, esse verso também fala de relações em que o outro só é aceito enquanto confirma uma imagem e permanece no papel que lhe foi imposto.
Durante muito tempo, no meu casamento, prevaleceu a narrativa de um homem admirável e de uma mulher que precisava se corrigir, se adaptar e se reconstruir. O que eu não entendia era que antes de salvar qualquer relação, eu precisava recuperar minha própria voz.
Crescemos ouvindo que quem ama não desiste, mas a questão não é negar recomeços, é reconhecer quando a insistência deixou de ser amor e passou a ser esforço unilateral. Relações podem ser reconstruídas, mas somente quando os dois se movem. Não existe reconstrução quando uma pessoa conversa, cede, procura ajuda e muda, enquanto a outra apenas assiste.
É aí que está a diferença entre persistir e insistir. Persistir faz sentido quando ambos ainda constroem juntos. Insistir é permanecer por medo, culpa ou adiamento, até que uma das partes comece a abandonar a si mesma para manter o vínculo de pé.
No meu caso, algo só mudou quando entendi que eu não conseguiria salvar sozinha um casamento sem cumplicidade e lealdade. Essa constatação doeu, mas também me devolveu a lucidez.
Se eu pudesse conversar com a mulher que fui, não diria apenas “vá embora”. Eu diria: pare de gastar toda a sua energia tentando entender o outro e observe o que está acontecendo com você. Você ainda reconhece a própria voz? Consegue dizer o que pensa sem medo? Quanto de si está sacrificando para manter essa história?
Se você já não sabe se permanece por amor, esperança ou medo do fim, talvez a pergunta não seja se essa relação merece outra chance, mas quantas chances você ainda pretende dar ao outro antes de dar uma a si mesma.
Deixo então o convite para que você solte o que não pode controlar, entregue o que já não depende de você e confie no caminho de volta. Reconhecer limites, deixar ir o que perdeu o sentido e entender que alguns finais não são fracassos, às vezes, é a única forma de voltar para si.



