A garoa miúda caía tão leve e tão macia sobre as folhas, que a tarde abafada logo se transformou num véu a sacudir-se sobre o jardim.
Em dado momento, aquele esvoaçar pareceu imitar cabelos ao vento ao envolver-se nos galhos do jasmineiro e nas roseiras com gotículas brilhantes.
Olhei para o lado e as ramas do chuchuzeiro esparramadas – que sempre me pareceram carrancudas, agora umedecidas pelo vento pareciam sorrir com o carinho pela passagem da névoa dançante.
Havia regozijo.
Depois de zanzar entre os galhos, a névoa clara elevou-se além das árvores. Rodopiou por um instante e se perdeu na imensidão.
A garoa cessou como se obedecendo a uma ordem.
Junto ao muro e dentro do canteiro, as primeiras rosas, em silêncio cativante, abriram suas pétalas. Vermelhas umas, amarelas outras e brancas aqui e ali, espreguiçavam-se nos braços aquecidos do sol que esplandecia.
Abriam-se ela como a dar vivas à felicidade.
Nesse bailado de cores mostravam-se embebidas, viçosas a contemplar o espaço, e a distribuírem aos meus olhos as cores da sua exuberância.
Lembraram-me minha mulher a me mostra um vestido novo, tamanha era a felicidade das flores ao se exibirem ao sol.
Nesse abrir de pétalas, acredito, elas agradeciam com deleite a água recebida, somada às lambidas de sol furando nuvens para iluminá-las.
O vento sibilava de alto a baixo balançando-as de um lado para outro a oscilarem como pipas coloridas.
Pois sob o abrigo do largo beiral da casa e cá com meus botões, teci pensamentos, remendei alguns e alinhavei uma conclusão ao observar não apenas o bailado delas, mas a conversa silenciosa entre si. Pareceu-me que riam.
A seu modo, eu acho, mas elas riam. Tão felizes se mostravam. Especialmente após um chuvisqueiro que valseia pingos como confetes sobre o jardim.
E ali, ainda debaixo do beiral, ao me enlevar com a garoa a refrescar as plantas — percebi que, silenciosamente, essa confraternização entre chuva, sol e flores, também regava de paz a minha alma.














