Aos 65 anos, Beto Vizzotto decidiu transformar a experiência acumulada em 24 anos de vida pública em uma nova etapa política. Depois de exercer um mandato como vice-prefeito e quatro como prefeito de Paraíso do Norte, ele deixou a Prefeitura em abril deste ano para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Natural de Paraíso do Norte, engenheiro agrônomo e participante da formação do PT, Vizzotto construiu sua trajetória política entre a administração municipal e a atuação partidária. Agora, leva para a campanha uma visão construída a partir da gestão de um município do interior e da relação com diferentes cidades da região.
Na entrevista ao editor-chefe do Diário do Noroeste, Adão Ribeiro, ele fala sobre a decisão de deixar a Prefeitura, os desafios do Noroeste e a experiência que pretende levar ao Legislativo estadual. Entre os temas abordados estão agricultura familiar e agronegócio, educação, saúde, cultura e turismo.
Diário do Noroeste: O senhor deixou a Prefeitura em abril para disputar uma eleição estadual. Como foi tomar a decisão de renunciar a um mandato que ainda tinha mais de dois anos pela frente?
Beto Vizzotto: Sem dúvida foi uma decisão difícil. Para mim, levar essa experiência de Paraíso do Norte para o debate estadual exigia que eu saísse da Prefeitura. Eu ponderei muito. Tenho o apoio da população de Paraíso nessa decisão, porque quem conhece o meu trabalho na educação, na cultura e na agricultura familiar entende que é importante fazer esse debate em nível estadual para levar essas experiências para mais cidades.
Não é fácil renunciar a um mandato popular, ainda mais em uma cidade pequena, mas foi uma decisão bem pensada. Eu não estou constrangido ou arrependido. Minha decisão foi justamente colocar essa experiência à disposição de um debate mais amplo.
Diário do Noroeste: O senhor também é conhecido pela capacidade de dialogar com pessoas de diferentes posições políticas. Como procura construir esse relacionamento?
Beto Vizzotto: Minha formação é uma formação sólida de esquerda, mas tenho o entendimento de que a política é feita no debate. Você precisa ter posições diferentes para, dentro dessas posições, construir uma média e ter possibilidade de realizar as coisas. Ninguém faz nada sozinho.
Eu sempre procurei ouvir, entender a situação e colocar a minha posição, mas sempre dentro do diálogo. Tenho lado e uma posição muito definida, mas dialogo. Em Paraíso do Norte tivemos investimentos importantes do Governo do Estado, e eu sou claramente de oposição ao governo nas questões que considero equivocadas, mas também reconheço aquilo que é importante e que o governo vem fazendo.
Diário do Noroeste: Desenvolvimento regional aparece como uma das principais bandeiras da sua trajetória. O que precisa ser feito para fortalecer economicamente o Noroeste?
Beto Vizzotto: Desde o meu primeiro mandato, sempre trabalhei para a região, porque acho que o desenvolvimento tem que ser coletivo. Não adianta minha cidade ir bem se São Carlos não for bem, se Paranavaí não for bem e as outras cidades também não forem bem.
Precisamos pensar em logística, infraestrutura, ferrovias e integração regional. No Paraná, estamos muito atrasados na questão do transporte intermodal. Acho que a prioridade agora deve ser o transporte ferroviário e a ligação do modal rodoviário com o ferroviário.
Diário do Noroeste: Como pretende tratar a relação entre agricultura familiar e agronegócio?
Beto Vizzotto: Meu compromisso fundamental é com a agricultura familiar, com os assentamentos da reforma agrária e com o setor da pequena produção, que produz comida para o País e precisa ser mais fomentado e ter mais investimentos. Mas o pequeno, o médio e o grande agricultor precisam de infraestrutura. O grande agricultor precisa de logística para a produção e de mercado.
Na agricultura familiar, precisamos trabalhar principalmente na organização em cooperativas e na industrialização. Em Paraíso do Norte participei da criação de uma cooperativa regional da agricultura familiar. Ela começou faturando cerca de R$ 500 mil e hoje, segundo os dados que acompanho, chega a R$ 11 milhões. Isso mostra que agregar valor à produção e organizar o agricultor em cooperativas pode viabilizar a permanência dele no campo.
Diário do Noroeste: E como o senhor pretende trabalhar para manter os jovens no Noroeste, evitando que eles precisem sair da região em busca de formação e oportunidades?
Beto Vizzotto: Precisamos investir em educação pública de excelência e em formação técnica. O Instituto Federal mudou a cara de Paranavaí, e hoje temos cursos técnicos e universitários de excelência.
Também defendo escolas públicas em tempo integral, com educação técnica e uma formação que desenvolva o potencial do aluno. Em Paraíso do Norte temos uma experiência que considero muito positiva, porque universalizamos a educação infantil em tempo integral e associamos a educação formal ao esporte e à cultura. Temos hip-hop, dança de rua, grafite, balé, robótica e inglês. A escola precisa ser prazerosa para a criança e, ao mesmo tempo, preparar esse jovem.
O Estado precisa investir mais fortemente nas escolas integrais públicas e na educação técnica. O Paraná é um Estado rico e pode fazer isso.
Diário do Noroeste: O senhor é um dos responsáveis pela realização do Paraíso do Rock. Por que a cultura ocupa esse espaço na sua atuação?
Beto Vizzotto: Eu enxergo a cultura como um direito. A saúde é um direito, a educação é um direito e a cultura também é um direito.
Eu nasci na roça e escutava sertanejo raiz. Aos 14 anos tive contato com uma coleção de rock and roll e me apaixonei. Quando retornei para Paraíso, começamos a fazer festas com bandas regionais e depois surgiu a ideia do festival.
O Paraíso do Rock está chegando à 15ª edição e reúne bandas autorais e grupos do underground de diferentes lugares. É uma forma de levar o nome de Paraíso do Norte para fora por uma questão positiva. Também acho que cultura não pode ser apenas contratar um grande show, é preciso estruturar as diferentes linguagens, dar espaço para os artistas locais e garantir continuidade.
Diário do Noroeste: O turismo regional também vem sendo apontado como uma oportunidade para o Noroeste. Como o senhor enxerga esse potencial?
Beto Vizzotto: O turismo de eventos é fantástico porque movimenta renda e tem um impacto ambiental menor do que outras atividades econômicas. Em Paraíso do Norte trabalhamos muito com o turismo de eventos, com a Festa da Leitoa, Festa das Nações, Paraíso do Rock, eventos religiosos e cavalgadas. São atividades que movimentam a economia e trazem recursos para a cidade.
Mas, assim como a cultura, o turismo precisa ser organizado e ter estrutura. No Noroeste temos que fortalecer essa organização regional, porque não é uma ação pontual. É preciso criar uma estrutura que depois tenha vida própria.
Diário do Noroeste: Na saúde, Paranavaí vive um momento importante com a perspectiva do curso de Medicina e a estrutura hospitalar regional. Como o senhor pretende atuar nessa área?
Beto Vizzotto: A saúde tem uma demanda infinita, você não consegue resolver todos os problemas, mas precisamos avançar principalmente na média e na alta complexidade, que são os grandes gargalos. Em Paraíso do Norte trabalhamos muito forte na saúde pública. Fizemos três UBS e construímos uma UPA 24 horas que, segundo o que nos foi relatado, passou a ser referência para outros municípios.
Paranavaí precisa fortalecer essa rede regional. Temos a Santa Casa, o projeto do curso de Medicina e outras estruturas que precisam estar conectadas. Também precisamos ampliar a oferta de cirurgias e exames de média e alta complexidade. O município não consegue bancar sozinho esses procedimentos mais caros, é necessário o aporte do Estado e do Governo Federal.
Diário do Noroeste: O senhor fala muito sobre levar a experiência de Paraíso do Norte para outras cidades. Que experiência é essa?
Beto Vizzotto: É uma experiência baseada em colocar as pessoas como prioridade. Na minha cidade, trabalhei com educação pública, saúde pública, cultura e agricultura familiar.
Diário do Noroeste: Quais são as suas considerações finais para os leitores do Diário do Noroeste?
Beto Vizzotto: Eu quero agradecer a oportunidade e dizer que estou colocando minha experiência à disposição desse novo desafio. Tenho uma relação muito forte com Paranavaí e com todo o Noroeste, passei grande parte da minha vida trabalhando pela região e acredito que o desenvolvimento precisa ser coletivo. Quero levar para o debate estadual aquilo que aprendi nesses anos de administração pública, principalmente nas áreas de educação, saúde, agricultura familiar, cultura e desenvolvimento regional. É uma nova etapa da minha vida política e eu estou preparado para esse desafio.












