Aquela menina de 6 anos, que fazia aulas de balé e se divertia com apresentações improvisadas durante as reuniões de família, não poderia imaginar o que o futuro lhe havia preparado.
Ana Júlia Cestaro sempre gostou das artes. Nasceu em Paranavaí, na Região Noroeste do Paraná, onde viveu até os 12 anos. Mudou-se para o município vizinho de Guairaçá para ficar mais perto de familiares da mãe.
Guairaçá é uma típica cidade pequena do interior. De acordo com o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, são 6.587 habitantes.

Foto: Arquivo pessoal
A rotina pacata contrasta com a pressa dos grandes centros urbanos. Foi nesse ambiente que Ana Júlia estudou, concluiu o ensino médio e ingressou na faculdade de Odontologia.
Sempre que podia, ela pegava a estrada e percorria os 35 quilômetros que separam Guairaçá de Paranavaí. Voltava para a cidade natal e fazia aulas de música e dança, mas se incomodava com a falta de um cenário cultural mais vívido, que permitisse mergulhar profundo no oceano das artes.
Um novo caminho
A virada de chave aconteceu em 2020. “Durante a pandemia [de Covid-19], quando eu cursava Odontologia, deu o lockdown e tivemos que voltar para casa e fazer tudo on-line.”
O termo em inglês utilizado por Ana Júlia, lockdown, popularizou-se durante a crise sanitária global e faz referência a medidas de restrição de circulação de pessoas e atividades coletivas, inclusive em setores como comércio e prestação de serviços.
Nesse período, diretores de uma peça de teatro chamada “Meninos e meninas”, em cartaz desde 2014, abriram uma capacitação a distância para pessoas de todo o Brasil. “Pensei: ‘gente, não estou fazendo nada, por que não?’. Estudava a peça toda a semana – músicas, texto… Fazíamos trabalhos on-line, criávamos cenas e apresentávamos para os diretores.”
Esse processo se estendeu por um ano e meio. No final de 2021, ela foi chamada para ir ao Rio de Janeiro e participar do espetáculo que os diretores de Meninos e meninas estavam montando, com estreia em 2022.
“Foi uma loucura! Primeiro eu disse ‘não’, porque dá medo, dá muito medo. Falei: ‘não, deixa eu ficar aqui, cursando minha faculdade direitinho. É mais seguro’. Só que isso foi mexendo comigo. Depois de dois meses, aquela vontade ainda estava aqui.”

Ana Júlia decidiu tentar. Se não desse certo, tudo bem. Mas não poderia conviver com a dúvida e o arrependimento. Foi para o Rio de Janeiro, onde contou com o apoio de amigos que fez durante as aulas pela internet. O resultado não poderia ser melhor. “Deu muito certo, tanto que não voltei até hoje.”
Nos palcos
O que viria a seguir estava além dos sonhos da pequena Ana Júlia, que dançava e representava nos almoços de domingo, ou da adolescente de 12 anos que deixou Paranavaí e foi morar em Guairaçá.
A participação de Ana Júlia em “Meninos e Meninas”, no ano de 2022, garantiu projeção e a levou a diversos espetáculos infantis, como o musical “Miraculous Ladybug: o show musical”, em cartaz em São Paulo durante o mês de outubro. A turnê começou em agosto deste ano.
Ladybug é uma personagem de desenho animado. É o nome de heroína da adolescente Marinette, que ajuda os pais na padaria da família. Ela se transforma em Ladybug com a ajuda de um miraculous, um par de brincos mágicos que representa a criação.
Na peça, Ana Júlia Cestaro integra o chamado ensemble, o coro musical. “Faço vários cortes ao longo do espetáculo, que tem uma hora e 15 minutos. Então eu danço o espetáculo todo, canto as músicas em coro, faço vários personagens.”
Ela também tem a atribuição de cover, que substitui outros atores quando não podem participar da apresentação. “Sou cover da Ladybug, que é a protagonista do musical, e da Chloe, que é a antagonista, a vilã.”
A preparação não é fácil. “Se eu dissesse que sim, estaria mentindo, mas a gente tem um mês e meio de ensaio, todos os dias, de segunda a sábado.”
O espetáculo é patrocinado pela Brasilprev através da Lei Rouanet de incentivo à cultura. Para conhecer mais sobre a peça, basta acessar o perfil oficial no Instagram (@miraculousladybygshowoficial).
Na tevê
O talento de Ana Júlia extrapolou os limites do teatro e ganhou as telas da tevê. Ela participa da série “Ben-Hur”, uma produção da Seriella Productions em parceria com a Record, baseada no clássico literário de Lew Wallace.
A série estreou nesta sexta-feira (9) exclusivamente no Univer Vídeo, uma plataforma brasileira de streaming com cofo em conteúdos cristãos, familiares e motivacionais. O lançamento da emissora de televisão Record está previsto para 2027.
A produção tem 50 episódios. Ana Júlia interpreta a jovem Maria, mãe de Jesus, e aparece com maior frequência nos primeiros capítulos e em cenas de memórias ao longo da história.
A atriz deu vida à mesma personagem na produção “A vida de Jó”, também da Record, em uma história que antecedeu cronologicamente a série “Ben-Hur”.
Cristã de formação católica, Ana Júlia fala da emoção de interpretar Maria. “Foi realização de um sonho assim. Eu digo que é o maior trabalho e a maior satisfação como atriz que eu tive até hoje. Poder fazer essas cenas tão marcantes de Maria, as cenas das partes mais marcantes da história de Maria, foi um presente.”
Antes de atuar no papel da Mãe de Jesus, ela foi Néftis na série “Reis”, da Record, que conta a história da nação de Israel, do momento em que o último juiz, o profeta Samuel, é usado por Deus para guiar o povo, até a queda de Jerusalém, causada pelos exércitos da Babilônia.
Na Globo, a atriz paranavaiense interpretou Cláudia na novela “Garota do Momento”, exibida de 4 de novembro de 2024 a 27 de junho de 2025, em 202 capítulos. A produção foi indicada ao Emmy Internacional 2026 na categoria Melhor Telenovela. Os vencedores deverão ser anunciados em 23 de novembro deste ano.
Seguir os sonhos
“Nesta semana, eu parei para prestar atenção em tudo o que estava acontecendo comigo. É muito doido pensar que há quatro anos eu estava cursando Odontologia.” A mudança de percurso pode até causar estranheza, mas quando olha para trás, Ana Júlia percebe que cada passo dado ao longo da jornada foi importante para construir um caminho de sucesso.
(Nota do repórter: ela tem apenas 24 anos. O futuro tem muito a oferecer. As possibilidades são infinitas.)
A atriz conta que está fazendo alguns testes, já pensando em 2027. “É esperar e trabalhar para acontecer.”
Olhando em retrospectiva, ela não tem dúvidas: “Valeu muito a pena ter deixado o medo e a insegurança de lado. Cheguei a lugares que jamais imaginei chegar.” A dica é uma só: “Tentar e se arriscar. Se der errado, deu. A gente cai, levanta e começa de novo. Então, se você tem um sonho, tem que seguir, ir atrás mesmo, porque o final do caminho é muito bonito”.















