A música produzida em Paranavaí está prestes a atravessar o mundo. Neste domingo (18), a Orquestra Municipal embarca para a China, onde representará o município e o Paraná no JZ Festival Shanghai, apontado como o maior festival de jazz da Ásia. A participação marca um momento histórico para o grupo e para a trajetória cultural da cidade, que terá um de seus principais corpos artísticos em um evento internacional.
O anúncio foi feito pelo diretor-presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, Rafael Torrente, em entrevista ao editor-chefe do Diário do Noroeste, Adão Ribeiro. Segundo ele, a oportunidade começou a ser construída no início deste ano, durante uma agenda institucional em Curitiba, e avançou por meio de uma articulação entre o Governo do Paraná, o Ministério da Cultura, instituições brasileiras, a organização do festival na China e a Prefeitura de Paranavaí.
A viagem surgiu de uma agenda inicialmente voltada à possibilidade de ampliar a circulação da Orquestra Municipal pelo Paraná. Durante as reuniões com representantes do governo estadual, a equipe de Paranavaí apresentou o trabalho desenvolvido pelo grupo e foi surpreendida com a indicação para representar o Estado no festival internacional.
A partir dessa indicação, a orquestra passou por uma avaliação da organização chinesa, que recebeu materiais e portfólio sobre o trabalho musical realizado no município. As tratativas tiveram início em janeiro e envolveram diferentes etapas administrativas, técnicas e logísticas até a confirmação da participação.
“É algo, sem dúvida, histórico, que vai marcar não só a história da Orquestra Municipal de Paranavaí, mas a história de cada um dos músicos que está tendo essa oportunidade de estar lá, representar a nossa cidade, o nosso estado e o nosso Brasil”, afirmou Torrente.

Repertório une clássicos brasileiros e jazz
A apresentação preparada para a China reúne diferentes referências musicais, com destaque para a música brasileira e para clássicos do jazz. A proposta é mostrar a versatilidade da orquestra e apresentar ao público internacional parte da riqueza da produção musical do país.
Entre as obras previstas estão “Carinhoso”, de Pixinguinha, “Aquele Abraço” e “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O repertório também inclui músicas associadas ao jazz, como “Groovin’ Hard” e “Fly Me to the Moon”.
O espetáculo terá momentos instrumentais e canções interpretadas pelos dois vocalistas da orquestra, Ricardo Yuque, na voz masculina, e Núbia Rafaela, na voz feminina.
A seleção musical busca equilibrar a identidade brasileira com a linguagem internacional do jazz, permitindo que o grupo apresente diferentes aspectos de seu trabalho. Para Torrente, a escolha também dialoga com a proposta do Femup, o Festival de Música e Poesia de Paranavaí, que valoriza a criação autoral e a expressão artística.
Embora a viagem tenha como destino um grande festival de jazz, o repertório não se limita ao gênero. A presença de samba, bossa nova e canções conhecidas do público brasileiro ajuda a construir uma apresentação que representa a diversidade musical do país.
Viabilização da viagem
A participação no festival é resultado de uma articulação entre diferentes instituições públicas e privadas. De acordo com Torrente, a indicação da orquestra contou com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná e de sua equipe técnica, além da atuação de outros parceiros envolvidos na aproximação entre Brasil e China.
A viabilização financeira ocorre por meio do programa Paraná Competitivo, em um termo de reinvestimento do Governo do Estado. Conforme explicou o diretor-presidente, os recursos que possibilitam a viagem são viabilizados pela Audi, empresa com unidade instalada no Paraná.
O processo também envolve o Ministério da Cultura, instituições brasileiras e chinesas, a Prefeitura de Paranavaí e a Fundação Cultural do município. O Instituto de Paranavaí (IPAC), segundo Torrente, também participa da articulação.
A mobilização demonstra como a cooperação entre diferentes setores pode abrir caminhos para que produções culturais de cidades do interior alcancem outros países. Neste caso, a oportunidade permite que um grupo mantido no âmbito municipal represente o Paraná em um evento internacional.
Torrente destacou o trabalho dos músicos e do maestro Luciano na preparação para a apresentação. Segundo ele, a orquestra vem realizando uma sequência intensa de ensaios para alcançar o melhor resultado musical possível.
O próprio diretor-presidente também participará da apresentação. Antes de assumir a presidência da Fundação Cultural, ele integrou a Orquestra Municipal por dez anos, experiência que, segundo relatou, foi decisiva para sua formação artística e profissional.
“Estou muito feliz com essa oportunidade”, disse, ao agradecer aos músicos, aos profissionais envolvidos na preparação e às instituições que contribuíram para tornar a viagem possível.
Uma história que também é de formação
A participação internacional representa um novo capítulo na história da Orquestra Municipal de Paranavaí, cuja trajetória está ligada à formação musical e à criação de oportunidades para artistas da cidade.
Conforme lembrou Torrente, o grupo passou por diferentes fases ao longo das décadas. Em determinado período, funcionou também como projeto social, permitindo que crianças e jovens tivessem o primeiro contato com instrumentos musicais e desenvolvessem habilidades que, para alguns, se transformaram em profissão.
Parte desses participantes seguiu carreira na música, tornou-se professor, passou a atuar em eventos ou encontrou na atividade musical sua principal fonte de renda. O próprio Torrente é um exemplo desse percurso. Ele contou que sua relação com a arte se profissionalizou por meio da orquestra, na qual tocou durante uma década e, ao assumir a direção da Fundação Cultural, deixou a formação regular do grupo, mas continuou acompanhando de perto seu desenvolvimento.
Cultura de Paranavaí vive período de expansão – A viagem da orquestra acontece em um momento de ampliação das atividades culturais no município. Na avaliação de Torrente, Paranavaí vem consolidando, nos últimos anos, uma programação mais diversificada, com oportunidades para artistas locais, festivais e apresentações em espaços públicos.
Um dos mecanismos permanentes é o credenciamento de artistas, que permite a contratação de profissionais para diferentes atividades culturais. Segundo o diretor-presidente, foram realizadas mais de 60 contratações de artistas locais em 2026, até a data da entrevista.
A programação também inclui os concertos da Orquestra Municipal em praças e parques, festivais de dança, o Festival de Culturas Populares e o Femup, que em 2026 recebeu reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Paraná.
Torrente avalia que os resultados demonstram o amadurecimento das políticas culturais desenvolvidas pela Fundação Cultural em conjunto com o Conselho Municipal de Cultura. A meta, segundo ele, é ampliar continuamente as oportunidades de acesso à cultura para a população.

















