O teatro tem o poder de aproximar pessoas, provocar reflexões e dar voz a histórias que muitas vezes não encontram espaço em outros lugares. Em Paranavaí, essa expressão artística faz parte da memória cultural da cidade, que já contou com grupos atuantes, montagens de espetáculos e artistas dedicados à formação de novas gerações. Para a atriz e professora de teatro Lígia Niehues, no entanto, manter essa tradição viva é um desafio que vai além do talento e da vontade de fazer arte.
Formada em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), em 2002, Lígia acompanha de perto as transformações do cenário cultural local. Hoje, divide a rotina principalmente entre a maternidade e o ensino de teatro, mas continua ligada à produção artística. Nos últimos anos, tem participado do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) como poetisa, declamadora e diretora de leituras dramáticas.
Ao olhar para a trajetória do teatro no município, ela sente falta de uma característica que marcou outras épocas: a existência de grupos que permaneciam juntos, produzindo espetáculos e desenvolvendo trabalhos de maneira contínua.
“Ressinto o fato de que hoje em Paranavaí não tenham grupos atuantes, trabalhando ativamente e produzindo peças como víamos o TEP, o TASP, o grupo que atuava no Teatro Emir Mância do qual fiz parte na década de 90”, afirma.
A própria Lígia tentou manter um grupo teatral na cidade, mas as iniciativas não tiveram continuidade. Na avaliação dela, essa dificuldade está relacionada a uma realidade que atinge artistas de diferentes áreas, que é a necessidade de conciliar a criação artística com o trabalho que garante o sustento.
Ela recorre ao conceito de modernidade líquida, do sociólogo Zygmunt Bauman, para refletir sobre a fragilidade dos vínculos e a dificuldade de manter projetos coletivos por longos períodos. Ainda assim, considera que a falta de investimento é um dos principais obstáculos para a permanência dos grupos.
As pessoas precisam trabalhar para se manter e, sem remuneração adequada, o teatro acaba ocupando um espaço secundário na rotina. A dedicação artística, que exige ensaios, preparação, pesquisa e tempo, torna-se difícil de sustentar quando não há condições para transformar esse trabalho em uma atividade profissional.
“Ninguém vai hoje em dia deixar tudo para viver de Teatro sem receber por esse trabalho”, observa.
Sem continuidade, grupos deixam de criar raízes
A falta de recursos não impede necessariamente que uma peça seja produzida, mas dificulta que o trabalho continue depois da apresentação. Para Lígia, esse é um dos principais problemas do modelo de produção cultural que depende de projetos pontuais.
Ela reconhece a importância das leis de incentivo e dos editais públicos para viabilizar espetáculos e outras iniciativas artísticas. Durante a pandemia, os recursos destinados ao setor foram importantes para manter atividades e apoiar trabalhadores da cultura. Atualmente, a Política Nacional Aldir Blanc (Pnab) também tem contribuído para a realização de produções.
O desafio, segundo ela, está em garantir que o investimento não se limite à execução de um projeto específico. Quando um edital possibilita a montagem de um espetáculo, por exemplo, um grupo de artistas se reúne para desenvolver o trabalho, mas depois da apresentação essas pessoas podem seguir caminhos diferentes, especialmente quando não existe uma estrutura que permita dar continuidade à produção.
Lígia defende políticas públicas que considerem não apenas o financiamento de espetáculos isolados, mas também a manutenção de grupos e coletivos ao longo do tempo. Com apoio para ensaios, formação, produção e circulação, os artistas teriam mais condições de desenvolver repertório, amadurecer suas pesquisas e estabelecer uma relação duradoura com o público.
Na cidade, ela destaca a atuação do Sesc como um dos principais responsáveis por trazer espetáculos teatrais a Paranavaí. A presença de produções de outras localidades é importante para ampliar o acesso à arte, mas, na visão da professora, também é necessário fortalecer as condições para que os artistas locais possam criar e apresentar seus próprios trabalhos.
A falta de espaços também limita a produção
Outro ponto que preocupa a atriz é a disponibilidade de espaços culturais adequados. O Teatro Municipal de Paranavaí está fechado para reformas há anos, enquanto a Casa da Cultura também passou por obras.
Nesse período, praças e espaços públicos, especialmente a Praça dos Pioneiros, têm recebido boa parte da programação cultural do município. Lígia reconhece o valor dessas iniciativas e considera que levar apresentações para locais abertos permite alcançar pessoas que talvez nunca tenham entrado em um teatro e aproxima a arte de diferentes públicos. Mas, segundo ela, essa democratização não elimina a necessidade de espaços fechados, preparados para receber outras linguagens e formatos de espetáculo.
Peças intimistas, textos que exigem silêncio e concentração, trabalhos experimentais e montagens que dependem de condições específicas de iluminação e som nem sempre encontram nas praças o ambiente mais adequado. Para ela, a questão não é escolher entre apresentações ao ar livre e espetáculos em espaços tradicionais, mas oferecer condições para que diferentes manifestações culturais possam acontecer.
Ver teatro também é aprender a fazer teatro
Na sala de aula, Lígia percebe outra consequência da dificuldade de manter uma programação teatral frequente, como a falta de referências para quem está começando. Segundo ela, muitos alunos têm poucas oportunidades de assistir a espetáculos e, sem esse contato, fica mais difícil conhecer diferentes formas de interpretação, descobrir novas possibilidades de criação e desenvolver o desejo de participar de uma montagem.
A relação entre assistir e fazer teatro é fundamental. O contato com outros artistas e com diferentes propostas cênicas ajuda a despertar interesses, ampliar repertórios e mostrar aos estudantes o que é possível construir no palco. Lígia observa que as salas de aula poderiam ser mais ocupadas se houvesse maior circulação de espetáculos e mais oportunidades de contato com a linguagem teatral.

É por isso que ela relaciona a valorização do teatro à própria democracia. Segundo ela, a arte abre espaço para diferentes vozes, questionamentos e experiências, funcionando como uma forma de expressão contrária à opressão.
“Uma sociedade se revela pela maneira como trata os seus artistas. O Teatro é voz, o contrário de toda opressão. Ver teatro é dizer: eu valorizo a democracia, eu te escuto”, afirma.
O desejo de ver os grupos novamente em atividade
Ao falar sobre o futuro do teatro em Paranavaí, Lígia não esconde o desejo de ver a cidade recuperar a força dos grupos que marcaram sua história. Mais do que realizar apresentações esporádicas, ela gostaria de acompanhar coletivos trabalhando de maneira permanente, com entusiasmo e apoio para desenvolver novas produções.
Aos que desejam começar no teatro, Lígia aconselha que não deixem de experimentar aquilo que desperta sua vontade de criar. Ao mesmo tempo, faz questão de reconhecer as dificuldades concretas da profissão, especialmente para quem pretende viver exclusivamente da atividade artística no Brasil.
O desafio é real, mas não elimina o valor da experiência. Para ela, fazer teatro é também descobrir capacidades, construir relações e participar de um processo coletivo que pode acompanhar uma pessoa por toda a vida.


















